17.
Mancebo o cravo
Já não da árvore ou tão pouco flor
Exaltou a memória
De vitórias
De antes, de muito antes, de se ter sentido flor
Contou e disse
Por gentes estrangeiras
Que o regaram
Sou mero sábio cego
aos tempos de futuro
mas do passado e do presente
sou mágico em força tamanha
que contra mim o vosso poder
é nada ou manha
de assustar quem viveu
na glória dos vencidos
e esse sou eu
ó gente miúda
imperadores do nada
que me regais para me roubar
a fortuna de não ter preço
mas ser semente que não se igual.
Prósperos de pobreza sois
ouro tingido de água impura
ide a outro endereço
que o meu arde
e há muito aquece
o céu perpétuo
sacro e nu
que por entre vós
firmemente vos faz frente
e permanece
Mancebo cravo
Que tua qualidade tenha por irmão
Deixa que dos teus conselhos
Saiba ouvir todos
E informando-me de quem sou
Repouse meus pés por justo atalho
E chegue à tua casa
Juntamente contigo
Meu regimento
Minha vida
Meu coração
Pátria em mim
Ou meu costume
Meu mui vizinho
Meu lume
Teresa Bracinha Vieira
2015
18.
Uma carta te enviei depois de mil
Em todas levantei ferro, sabes tu
E em quase todas te achei no destino indicado
Par onde se descrevem as longas curvas
Que por rumos encontram soltas
As verdades
E assim mil cartas impossíveis
De traçar nas rotas todas
Por onde se fizeram mar
Eu te escrevi
Mas esta? Esta, depois das mil
É só uma
A travessia fez-se, é certo
Mas amor
O tempo cresceu e a tempestade
Pontuada de ilha em ilha
Cruzou-se com a carta
Levou-a, soube, até ser tempo de iniciar
Uma outra curva
Quando de súbito retornou-se no caminho
E aqui a tenho
Nas mãos deste destino
Ao contrário da expedição
Diz-me
Foi a data que te desagradou?
Ou o número da carta
Mil e um ? que a tua região do peito
Quis perder?
Que faço? A não ser
Não voltar para trás
Por não ser possível já não escrever
Contra tudo o que te disse
Assim aqui me tens
Na morada de onde se soltam as amarras
De onde se corta o norte e o leste
O agosto e o dezembro
Até que os deuses e Deus por mim
Ou por nós
Façam empenho
E depois de anos te esperar
Possa eu apurar meu muito amor no teu
E conjugar
O braço nos abraços
Da carta mil e um
Sem desejar
Que tudo isto se explique
Ou seja sequer
A boa esperança
Teresa Bracinha Vieira
2015

