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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Sobre a criatividade.

 

‘The creation of something new is not accomplished by the intellect but by the play instinct acting from inner necessity. The creative mind plays with the objects it loves.’, C. G. Jung

 

Criar possibilita ao homem ligar o universal ao individual, o divino ao terreno, a parte ao todo, o processo à estrutura, o gesto à razão, a ideia à matéria. 

 

Criar é uma das funções primordiais da vida humana. Ao criar, o homem pode encontrar-se com a sua identidade única e expandir o seu campo de ação singular. 

 

No livro ‘Free Play. Improvisation in Life and Art.’ de Stephen Nachmanovitch, lê-se que a criatividade permite aproximar determinados elementos outrora separados (o natural ao social; a verdade à ilusão; o subjetivo ao objetivo; a ordem ao acaso); liberta o homem em relação a determinadas restrições; aumenta a capacidade de adaptação, flexibilidade e abertura do homem ao seu contexto e condições; e possibilita uma reinterpretação constante da realidade. 

 

Hegel em ‘Estética’ afirma que o homem cria em virtude de ter um espírito, de ter consciência de si próprio e de ter capacidade reflexiva sobre o seu próprio pensamento. A verdade que o homem busca/cria está em si mesmo. A criatividade traz ao homem a possibilidade de se encontrar simplesmente através do ato de fazer – aqui a procura é mais importante que a descoberta, o processo é mais importante do que o que se produz.

 

Sendo assim, avança-se sucintamente a hipótese de que o processo criativo se constitui através dos seguintes elementos:

 

Mente: a predisposição ao temperamento melancólico permite associar o macro ao microcosmos – ‘La natureza del humor melancólico sigue la cualidad de la tierra que nunca se dispersa tanto como los demás elementos, sino que se concentra más apretadamente en sí misma… tal es también la naturaleza de Mercurio y de Saturno, en virtud de la cual los espíritus, acumulándose en el centro, llevan el alma de aquello que les es extraño a lo que les es proprio, la fijan en la contemplación y la preparan para penetrar en el centro de las cosas.’, M. Ficino (‘Theologia platonica de animarum immortalitate’)

 

Existência: o homem é o seu contexto/realidade/experiência com determinado gosto (capacidade de julgar o belo – que não é uma qualidade mas uma sensação que depende de um conhecimento cultural e de um determinado modo de vida).

 

Intuição: permite a aproximação ao conhecimento sensível (todas as coisas têm uma alma e diferentes níveis de profundidade). Existe uma inexplicável necessidade inata para o homem criar. A intuição procede de tudo o que o homem sabe e de tudo o que o homem é. Steiner em ‘How to know higher worlds’ declara que através da intuição o homem procura unidade com as forças criativas do cosmos sem perder a sua consciência individual. 

 

Matéria: é a extensão do corpo/mente. É a ideia concreta. 

 

Forma e expressão: a criatividade configura e constrói coisas. Formar é dotar a matéria de espírito, é aproximar o sensível ao racional, é  revelação, é novidade.

 

But what we learn from our newly improvising body is that it can be debilitating to depend on the creativity of others. When this creative power that depends on no one else is aroused, there is a release of energy, simplicity, enthusiasm. The word ‘enthusiasm’ is Greek for ‘filled with theos’ – filled with God.’, S. Nachmanovitch

 

 Ana Ruepp

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