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O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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ALMADA E CARLOS SELVAGEM: ENCONTRO DE DRAMATURGOS

 

A vida cultural portuguesa, ao longo do seculo XX, foi abundante em dissidências e incompatibilizações pessoais e artístico-literárias: mas também o foi no cruzamento de colaborações e relacionamentos, estéticos e pessoais que, muitas vezes – outras não!… – ultrapassavam as clivagens de escola, de estética e de ideologia. Isto, note-se, independentemente de uma maior ou menor convergência profissional ou amizade pessoal..

 

Carlos Selvagem, oficial do Exército, historiador militar e Governador colonial, não tem um currículo convergente com o de Almada Negreiros. Mas, para lá da convivência ao longo de décadas, unia-os a atividade criativa como escritores e o sentido de uma cultura subjacente ou expressa na obra dramatúrgica. Que por vezes convergia: por exemplo a peça Pierrot e Arlequim de Almada é de 1924 e a pantomima Serenata de Polichinelo, de Selvagem é de 1927: e no entanto, não há, na obra dramática destes dois autores, em si mesmos tão diferentes, uma trajetória ou uma influência reciproca direta.

 

Mas surgem ligados em 1944 na produção de um espetáculo memorável – Dulcinéa ou a Ultima Aventura de D. Quixote, de Carlos Selvagem levado á cena no Teatro Nacional D. Maria II por Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro, com cenários e figurinos de Almada. E aí, encontramos de facto, a convergência estética, que tornou este espetáculo de certo modo memorável, passados que serão, dentro de meses, exatos 50 anos desde a estreia.

 

É que o texto de Selvagem assuem uma linguagem cénica e literária de tom poético, seja este épico ou lírico, na visão quase mística da figura do protagonista. Estamos evidentemente num reino de fantasia, o Reino da Tristânia – e desde logo a designação diz muita coisa – e estamos perante um conflito “político” e pessoal. D. Quixote enfrenta os poderes constituídos do Reino, O Alcaide-Mor, o Banqueiro, o Capitão Geral, os quais contratam a prostituta Florinda passa se fazer passar por Dulcineia e derrotar de vez D. Quixote. Mas este é traído por D. Roberto, enquanto a Florinda se apaixona por D. Quixote. Florinda é condenada á morte e D. Quixote expulso sobe a acusação de ser, ele próprio, o Encoberto!

 

A peça inscreve-se pois por direito próprio e com grande qualidade na corrente sebastianista da cultura portuguesa. E t assume uma linguagem poética que não é comum, nesse registo, na aliás notável dramaturgia de Carlos Selvagem, em que domina um realismo de conteúdo e crítica social ou dramatização histórica.    

 

Ora bem: para este espetáculo criou Almada  um admirável conjunto de figurinos, parte deles  reproduzidos no  volume intitulado “Almada – A Cena do Corpo”, editado  por ocasião  da exposição realizada no Centro Cultural de Belém em 1993-1994. Aí encontramos efetivamente quatro aguarelas de Almada, correspondentes às personagens de indumentárias respetivas de D. Quixote, de um Alabardeiro, de um fidalgo e ainda os projetos de uma liteira e de um chapéu. Mas a coleção referida abrange um conjunto de 11 projetos de Almada, que bem mereceram na altura e exposição – e bem mereciam hoje ser recuperados e devidamente estudados, pois comprovam, uma vez mais, a criatividade ímpar ao autor e a sua intervenção constante nas artes de espetáculo.

 

DUARTE IVO CRUZ

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Comentário sobre “ALMADA E CARLOS SELVAGEM: ENCONTRO DE DRAMATURGOS

  1. Gosto muito desta peça do meu avô materno, mas infelizmente não tenho esta edição… Sabe-me dizer se a capa deste livro também é do Almada? Ou se não, de quem seria?…

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