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O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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As certezas do Japão no feminino

 

A história da literatura japonesa também se encontra dividida em vários períodos. O período Heian nome da capital da época, Heian-Kyo, actual Kyoto foi marcado especialmente pela poesia. No Japão – final do sec. VIII até ao final do sec. XII – a forma poética tanka brilhou pelas mãos de duas mulheres: Izumi Shibiku e Ono No Komachi, ambas pesos raros na fixação do japonês como língua poética.

 

Apesar de a escrita chinesa (kanbun) continuar a ser a língua oficial do período Heian, esta poesia originou o desenvolver da literatura japonesa.

 

O tanka ( de 31 sílabas) que dá lugar ao haiku (de 17 sílabas e inicialmente masculino)constituem uma arte do olhar e do interpretar, e o haikai, igualmente forma poética,  busca pela subtileza uma unidade compacta entre impressão e realidade que na sua concisão tudo devem dizer.

Recordo que num livro quis prestar homenagem a esta conciliação e por entre outros Hai-Kai o arriscado

Quando tardas

Adio o essencial.

 

Há quem afirme que esta escrita representada pelos tankas é inscrita por signos, tal a lenda na história de tão fortificada e contida arte.

De salientar que a consciência religiosa e erótica de Komachi e Shibiku permite-nos avaliar, o quanto estes tempos foram igualmente marcantes na liberdade e cultura das mulheres, sendo aceites sem reparos os seus múltiplos casos amorosos, bem como a sua independência monetária podendo usufruir de rendimentos próprios.

 

 

 

A sensualidade proverbial desta poesia relata-nos conversas, actos ou omissões auspiciosos no papel da interpretação da vida e da própria política, avaliada pelo sentir gracioso destas mulheres de pincel da escrita, que assim registaram as emoções humanas face ao mundo.

Izumi Shikibu uma das mais importantes figuras da Literatura japonesa era uma rebelde social determinada a viver a vida sem receios, e, num misto de eros e de meditação budista escreveu:

Costumava dizer dos homens: «como é poético»,

Mas agora sei

Que o erguer da madrugada é apenas cansativo.

 

 

 

 

E Ono No Komachi mulher astuta na intuição da impermanência do ser, escreve

Quando o meu desejo se torna intenso de mais,

Visto a roupa de dormir virada pelo avesso.

Aqui a poetisa segue o velho costume japonês de virar a roupa ao contrário para que os desejos se cumpram.

E também eu vesti roupa do avesso tentando aproximar-me, e no meu livro

A outra ponta de mim tens tu. Mostra-me o futuro!

Enfim, não creio que exista uma versão portuguesa dos tankas, menos ainda uma tradução, talvez antes uma aproximação, mas de referir que em 2007 a Assírio e Alvim ajudou-nos no à deriva em relação a este género literário.

pois como dizer

Os vivos vão sendo menos(…)o luar derramado espreita

Então, talvez atentar a Jane Hirshfield que nomeia o sentir destes textos japoneses como único «leap of faith».

 

Teresa Vieira

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