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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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AS ENERGIAS ALINHADAS

  


Nenhuma cidade, nenhuma casa, e de facto nenhuma parte de casa, deve ser construída ou arrumada sem que as energias estejam perfeitamente alinhadas. A arte antiga do Chop Suey assegura-nos que nenhuma janela pode estar virada a poente a menos que a máquina de sumos irradie para o quarto de cama; que não se pode descurar os armários e a parede; e que os Quatro Ventos são comandados pela via de cintura interna. Um pouco abaixo da cintura, outra linha imaginária une a parte esquerda da alma ao centro cultural. Para o demais, um cesto de artesanato com hemoptises, cristais, cornélias e ermelindas negras. Sentimos que o mundo é a nossa ostra, e que a nossa casa nos abraça.

Trata-se da origem da antiga arte da planificação, e com resultados semelhantes. A atenção às energias alinhadas é responsável pela harmonia entre pessoas, animais e cosmos. Cada pessoa, animal ou cosmos pode ser comparado a um rim; as energias acumuladas passam pelo meridiano de Greenwich, o qual por sua vez afecta os rins. O rim tem a forma da ostra, e regista a ecografia dos sons. Foi desde muito cedo na história da espécie, quase desde o primeiro Ano do Gato,  um modo seguro de evitar as Dez Abominações. Inserindo agulhas esterilizadas na Hóstia de Camarão, revelam-se os Quatro Ventos; brotam aproximadamente mil flores, numa média de duzentas e cinquenta por armário, segundo se calcula.

Com a casa arrumada estamos finalmente prontos para começar o Chow Min. Sem ele as nossas manhãs não seriam como de facto são. Nos jardins preparados antecipadamente pelo Ancinho os praticantes sincronizados movem-se como o polvo entre as flores. Com uma lentidão calculada  levantam todos a mesma perna; ‘a mesma perna’, dizemos bem. Com efeito, embora num sentido trivial a perna seja de quem acontece tê-la, qualquer perna, por maior que seja, é a perna do Um. O Um corresponde por sua vez sensivelmente a metade do Dois.

Só quem não participou alguma vez numa aula de Chow Min, com a extraordinária experiência que isso implica, a pode reduzir às coreografias que parecem inconclusivas a olhos estranhos, sem comparação possível com as aulas buliçosas de Herodes ou de Kwanza. Tal como o Chop Suey organiza o espaço físico, a verdadeira dimensão do Chow Min é mental. Parte a partir do físico, por assim dizer, em direcção ao mental, até acabar por lá chegar. A mente, que é a marca do mental, caracteriza-se por ter um extraordinário poder de concentração mental, como um sumo a que não foi adicionado qualquer outro sumo. Ao focar-se nas luzes que estão para lá do muro, levanta-se uma energia. Dizem os fiéis, e com perfeito motivo, que assim até dá gosto viver na Parede.


Miguel Tamen
Escreve de acordo com a antiga ortografia

2 comentários sobre “AS ENERGIAS ALINHADAS

  1. Ex.mo Senhor Professor
    Doutor Miguel Tamen
    “Nenhuma cidade, nenhuma casa, e de facto nenhuma parte de casa, deve ser construída ou arrumada sem que as energias estejam perfeitamente alinhadas.”
    Eu acrescentaria, começar por arrumar a nossa própria cabeça. Em termos populares “fazer contas à vida”. Nunca consegui compreender, porque é que as pessoas andavam de carro, apenas na primeira metade do mês, acabando assim o combustível, e aí passavam a utilizar o comboio. O mesmo se diga, ir ao restaurante só nas primeiras semanas, etc, etc…
    Em qualquer emergência…não há dinheiro, nem combustível….

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