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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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As irmãs Brontë

O fascínio e o mistério envolvendo as irmãs Charlotte, Emily e Anne  veio a desenvolver o chamado mundo Brontëano que nasce e logo se expõe nos tempos da rainha Vitória em Inglaterra.

Estas irmãs conseguiram a notoriedade no universo literário de então, não obstante serem mulheres e mulheres de vidas tremendamente sofridas. Entendem utilizar nomes masculinos nas suas obras literárias, pois receavam que o preconceito contra as mulheres escritoras, as vencesse numa luta tão profundamente desigual que coragem não bastasse.

Muitos rios de tinta correram já sobre a vida e obra destas irmãs, filhas de um austero reverendo inglês. Na verdade,  a despeito da rígida educação que receberam , exploraram estas irmãs, áreas do amor/paixão, da sombria natureza humana, como se tivessem habitado uma vida de convívio com a percepção das realidades  em liberdade, e não confinadas à pequena casa que habitavam e que se abria para o cemitério do lugar.

Na escrita das irmãs Brontë existe uma clara luta contra impossibilidades, luta que passa pelo físico e pela linguagem que escolhem para clarificar a consciência encontrada, e o desejo de a partilhar através da inteligência e da emoção. 

Principalmente conhecidas pelos seus romances como é o caso do livro de Emily “O Monte dos Vendavais”, ou o “The Tenent of Wildfell Hall” de Anne, ou ainda “Jane Eyre” de Charlotte, escreveram também poesia.

Foi pela chancela da Relógio D’Água, no corrente mês, e pela tradução de Ana Maria Chaves, que me chegou às mãos os “ Poemas Escolhidos das Irmãs Brontë”.

Tento a sugestão de os atravessar num comum verso, mas tão distinto poema, que, o índice de procurar estas irmãs pela poesia constitua também um desafio.

 

Às vezes penso que um coração apertado

Me faz assim chorar quem está ausente,

E mantém o meu amor tão arredado

Dos amigos e amizades do presente;

Às vezes penso que é só um sonho.

(…)E a Paciência, do jugo já cansada,

Rende-se ao desespero,

A Vida acabará e eu não vivi;

Onde está a minha juventude?

Trabalhei, estudei, ansiei, sofri,

Todo esse tempo de plenitude.

 

Ao encontro de Charlotte e por outro caminho Emely responderia:

 

Estava em paz, e vossos raios bebia,

Eles, que eram vida para mim;

E em sonhos inconstantes eu me comprazia,

Como o calca-mares no mar sem fim.

Ideias e estrelas, uma a uma,

(…) Enquanto vindas de parte nenhuma

(…) E por entre os olhos fechados.

 

E  Anne continuaria o diálogo solitário nas mãos destas palavras:

 

God! If this is indeed be all

That life can show to me ;

(…) While I go wandering on

(…) From earth, and air, and sky

(…) As in the days of infancy

Sweet Memory! Ever smile on me.

Pode a infância ter tanta glória?/Ou será prodígio da Memória/Que o passado vem dourar?/

Nem tudo é divino; os seus reveses/(Embora de pouca dura tantas vezes)

Custam mesmo assim a suportar.

 

Teresa Vieira

Abril 2014

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