As narrativas instantâneas tornaram-se o meio de comunicação por excelência, e as pessoas são informadas por resumos, eles próprios já mutilados de coerência e verdade, gerando desorientação e a incapacidade de conhecer, em termos de períodos, sequências e espessura, o que se desenrola à sua volta.
As experiências vividas e adquiridas, como registo de uma realidade, são cada vez mais ignoradas, o que conduz a que tudo se entupa e as explanações do acontecido deixem de conseguir ser transmitidas.
É cada vez mais raro encontrar quem consiga contar uma história, sobretudo se a loucura do uso absoluto do telemóvel já o tiver invadido.
Parece não haver preocupação que registe o quanto a dificuldade em verbalizar o pensamento, e até em elaborá-lo, transforma as próprias emoções em fragmentos, impedindo o indivíduo de contar a sua própria história de forma inteligível.
Na verdade, a competência narrativa dos indivíduos tem regredido notoriamente.
O fenómeno da desvalorização do rigor também se experimenta no que nos rodeia como um novo ideal promovido pela subcultura de massas na formação de pessoas efémeras.
Tudo está pronto a usar e as imagens sobrepõem-se, implicando uma distração permanente, exatamente aquela que impede que uma história possa gerar qualquer energia de escuta, qualquer experiência que se fixe, qualquer memória; e tudo se padroniza segundo os formatos predominantes, descurando-se que a experiência comunicável é absolutamente necessária à própria proteção do homem.
A enorme dificuldade do indivíduo em contar a sua própria história, de articular razões inteligíveis que não constituam meros slogans, é algo que parece atingir mais quem nasceu no seio digital, talvez porque, através dele, cresceu em universos muito saturados de cenários prontos a utilizar, de cenários que não compreendem que a experiência é existência e dom.
Os indivíduos hiperconectados tendem à escassa reflexão, o que empobrece necessariamente o campo afetivo e reduz o que é partilhado, enquanto se institui a padronização.
Cuide-se, pois que a própria inaptidão em transmitir tudo o que envolve a dor de uma fome é muito similar ao não reconhecimento do bafo da violência de um mundo que pretende impor a não pertença dos homens ao que os viu nascer.
Teresa Bracinha Vieira
Como na canção: we’re going nowhere fast