auto_stories

Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

news

Subscrever por e-mail

Receberá apenas novas publicações - no máximo, um e-mail por dia.

Papa Leão XIV

Categories

A Vida dos Livros

Encíclica “Magnifica Humanitas”

O Papa Leão XIV apresenta-nos uma análise oportuna e necessária do relação do mundo contemporâneo com o progresso. Prosseguimos na análise da Encíclica “Magnifica Humanitas”, pela sua importância a atualidade.

Recordamos que o Papa Francisco em Laudato si’ denunciava a crescente referência a um paradigma tecnocrático no mundo globalizado, num mundo em que se torna mais evidente que a técnica deixa de ser um mero instrumento e que, quando se torna critério, acaba por determinar o que é importante, reduzindo a criação a um objeto de exploração e as pessoas a engrenagens dum sistema que quer ser mais eficiente. Este paradigma tem-se expandido, devido à difusão da inteligência artificial (IA), das ciências cognitivas, da nanotecnologia, da robótica e da biotecnologia. Essas inovações podem tornar-se uma grande ajuda para o desenvolvimento humano integral, contudo, podem agir como um acelerador do paradigma tecnocrático, necessitando de um novo enquadramento espiritual, ético e político. Neste sentido, o Papa Leão XIV recorda as palavras de Romano Guardini: «o homem moderno não está educado para usar corretamente o seu poder». Assim, o perigo da humanidade se tornar vítima das próprias conquistas foi motivo de preocupação de Paulo VI, quando advertiu para que «os progressos científicos mais extraordinários, as invenções técnicas mais assombrosas, o desenvolvimento económico mais prodigioso, se não estiverem unidos a um progresso social e moral, voltam-se, necessariamente, contra o homem».

Assim, o progresso técnico exige a ponderação sobre a visão antropológica que o orienta e sobre os fins que persegue. «Se o desenvolvimento tecnológico avança sem uma maturação ética e social adequada, pode acontecer que os meios aumentem sem que a humanidade cresça na mesma medida: “tem-se mais”, mas não “se é mais” e a pessoa corre o risco de ser avaliada sobretudo com base no desempenho que garante». Importa, deste modo, o controle das plataformas digitais, das infraestruturas, dos dados e da capacidade de computação, que não é prerrogativa dos Estados, mas sim de grandes atores económicos e tecnológicos que estabelecem as condições de acesso, as regras de visibilidade e as próprias possibilidades de participação. Aqui temos de estar de sobreaviso: Quando um poder desta magnitude se concentra tende a tornar-se opaco e a fugir ao controle público, com aumento do risco de “novas dependências, exclusões, manipulações e desigualdades”.

Ante a concentração de poder no mundo digital, os grandes princípios da Doutrina social católica tornam-se critérios para avaliar e discernir o novo cenário: a dignidade inalienável da pessoa humana, o bem comum, o destino universal dos bens, a subsidiariedade, a solidariedade e a justiça social. Estes princípios exigem que se verifique se o poder das infraestruturas digitais e dos algoritmos favorece realmente a participação e a responsabilidade, protege os mais frágeis, assegura um acesso equitativo às oportunidades e permanece orientado para o bem de todos. Isto é fundamental.

A IA corre o risco de tornar-se obsoleta em pouco tempo, dada a impressionante velocidade de desenvolvimento destes sistemas. Por outro lado, sabemos muito pouco sobre o seu funcionamento efetivo. Não é possível dar uma definição unívoca e completa da IA. Devemos evitar o equívoco de equiparar esta “inteligência” à humana. Estes sistemas imitam algumas funções da inteligência humana. Ao fazê-lo, muitas vezes superam-na em velocidade e amplitude de cálculo, no entanto, este poder permanece exclusivamente ligado ao tratamento de dados: as ditas inteligências artificiais não vivem uma experiência, não possuem um corpo, não passam pela alegria e pela dor, não conhecem internamente o que significa amor, trabalho, amizade, responsabilidade. Não possuem uma consciência moral: “não julgam o bem e o mal, não captam o sentido último das situações, não assumem sobre si o peso das consequências. Podem imitar linguagens, comportamentos, avaliações, podem simular empatia ou entendimento, mas não compreendem o que produzem, porque não penetram o horizonte afetivo, relacional e espiritual da humanidade.

O uso da IA não é uma questão meramente técnica: ao interferir em processos que afetam a vida do dia a dia das pessoas, ela incide sobre direitos, oportunidades, reputação e liberdade. Decisões delicadas que dizem respeito ao trabalho, ao crédito, ao acesso a serviços e à reputação das pessoas correm o risco de ser confiadas inteiramente a sistemas automatizados que desconhecem «a compaixão, a misericórdia, o perdão e, sobretudo, a abertura à esperança de mudança da pessoa». Surgem, deste modo, usos manifestamente anti-humanos, como a manipulação da informação ou a violação da privacidade, mas pode também haver uma ameaça menos evidente, quando os sistemas de IA, apresentando-se como neutros e objetivos, refletem e reforçam estereótipos ou posições ideológicas daqueles que os projetaram e treinaram.

“Confiar, na prática, a um algoritmo o poder de selecionar quem merece ou não, sem que ninguém mais assuma o peso da decisão, significa confiar-lhe a tarefa de redefinir os limites das possibilidades humanas”. Neste processo perde-se a responsabilidade cívica e política, porque os mais fracos são dispensados, sob o argumento da neutralidade e objetividade. A injustiça torna-se silenciosa, e desaparecem a compaixão, a misericórdia e o perdão. Deste modo, não podemos considerar a IA moralmente neutra. “Se um sistema for concebido ou utilizado de modo a tratar certas vidas como menos dignas, ou a excluí-las sem possibilidade de apelo, não se trata de um mero instrumento “a ser bem utilizado”: introduz já um critério que contradiz a dignidade inalienável da pessoa” Devemos assim questionarmo-nos sobre o instrumento e sobre que ideia de pessoa e sociedade que consideramos.

 “Para que a IA respeite a dignidade humana e sirva verdadeiramente o bem comum, é essencial que as responsabilidades sejam claras em todas as etapas: desde quem concebe e treina os sistemas a quem os utiliza e decide confiar-lhes escolhas concretas”. Se há falta de transparência, torna-se decisivo assumir a “responsabilização” ( accountability): a possibilidade de identificar quem deve “prestar contas” das decisões, motivá-las, controlá-las e, quando necessário, contestá-las. A qualidade de uma civilização não se mede pelo poder dos seus meios, mas pelo cuidado que sabe oferecer, pela capacidade de reconhecer o outro enquanto pessoa e não enquanto função.

Uma dimensão importante do ser humano é a capacidade de estar atento e de saber cuidar uns dos outros. Esta aprende-se e aperfeiçoa-se com a experiência. É o saber de experiências feito. Ler histórias a uma criança, fazer companhia a um idoso, cuidar de quem precisa, tornar acolhedor um espaço, são gestos que se vivem no ambiente familiar, ajudando-nos a aprender e a interiorizar a importância do cuidado, treinando-nos para reconhecer o outro como a outra metade de nós, como pessoa digna de atenção. A tecnologia pode apoiar o cuidado mútuo entre as pessoas, ao oferecer ferramentas que, por exemplo, ajudem a prever e a organizar, mas sem derrubar a liberdade e o discernimento do ser humano, sujeito das relações e responsável pelas decisões.

Se há instrumentos tecnológicos que melhoram a vida humana, o desenvolvimento e o progresso, devemos aperfeiçoá-los, limitando a sua influência negativa. O bem comum, a defesa dos direitos humanos e a preservação da dignidade da pessoa humana – eis o que devemos ter sempre presente na sociedade e na História.

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

Comentário sobre “Encíclica “Magnifica Humanitas””

  1. Subscrevo na íntegra.

    Feita a certeira análise, deixo as seguintes singelas propostas de melhoria:

    i) O vencedor leva tudo.

    A nossa servidão é, em certa medida, voluntária.

    O poder dos grande actores tecnológicos advém da nossa adesão em massa aos seus produtos, sem qualquer sentido critíco ou ético.

    Se houvesse um princípio geral de INTEROPERABILIDADE, definido e imposto por lei, esse poder viria necessáriamente diminuído.

    Ex. A é cliente da operadora de comunicações ZYW, B da XPTO, C da QWERTY. A consegue falar com B ou com C.

    Z tem conta de mail no GMail, Y no SAPO, X no Outlook. Z consegue enviar correio electrónico para Y ou Z.

    Francisco tem conta no WhatsApp – só consegue comunicar no seio dessa plantaforma. Idem para o X, o Instagram, e a generalidade das plantaformas.

    Deveria ser imposta a interoperabilidade por defeito, por forma a evitar monopólios. Isto cabe aos reguladores, através da definição de protocolos como o do correio electrónico, o SMTP.

    [Tal também poderia surgir pelo boicote dos utilizadores: ex: desintalar todas as apps por uma semana. Vide J. Lanier, Ten Arguments for Deleting Your Social Media Accounts Right Now, New York: Henry Holt and Co., 2018, ISBN 978-1-250-19668-2]

    ii) Humanos ou Robots?

    Grande parte do tráfico gerado na internet provém cada vez mais de ‘bots” ou de identidades falsas. Seja para comentar negativamente um restaurante ou hotel, para propagar mensagens publicitárias ou políticas, a cacofonia instalou-se na internet, poluíndo-a.

    Forma de contornar isto?

    Obrigar à identificação de utilizadores, via plantaformas como o Gov.pt. Existe forma técnica de o fazer sem colocar em risco os dados pessoais. Com a vantagem de tornar mais fleumática e responsável a participação em discussões e fóruns.

    iii) Algoritmos – Uma faca de dois gumes

    Nada é intrinsecamente mau ou intrinsecamente bom. Assim é com os algoritmos que comandam as redes sociais.

    Os algoritmos têm de ser escrutinados. Ponto.

    Isso na exacta medida em que podem gerar problemas de saúde pública e dependência. Sem falar no impacto na Democracia.

    Se o algoritmo mostrasse videos sobre a fórmula resolvente, lições de biologia, lições sobre o orçamento geral do estado e não mensagens xenófobas ou de ódio, talvez não fosse mau de todo.

    Em suma, regulação precisa-se. Os estados não podem ausentar-se de regulamentar o espaço digital.

    Parece fácil, mas não é difícil.

    Basta vontade política e uma opinião pública incisiva.

    Leitura recomendada sobre o tema: Enshitification, de Cory Doctorow

    Boas Leituras

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *