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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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Ivan Turguéniev, também conhecido como o inventor do termo nihilista

 

 

Turguéniev autor de “Pais e Filhos” considerado uma das obras-primas da ficção russa do séc. XIX e a que a Relógio d’Água deu chancela, foi escrito entre 1860 e 1862, exactamente quando, na Rússia, o czar decretava o fim da servidão.

 

Curiosamente no romance “Pais e Filhos” recusa-se tanto o conservadorismo das gerações mais velhas, como o radicalismo da juventude e Turgéniev chamou o protagonista do livro de “nihilista”, cunhando assim o termo.

 

De registar que Ivan fora vítima de uma mãe desmesuradamente despótica, reflectindo-se ao longo da sua obra esta tremenda realidade, e conhece o grande amor da sua vida em Pauline Viardot , uma cantora de ópera espanhola, casada, e com quem viria a relacionar-se profundamente na cumplicidade do marido da solista. Mencione-se que nasce uma filha de Ivan e Pauline e, segundo amigos comuns, a servidão de Ivan ao sentimento sentido por ambos marca-lhe os dias até à sua morte em França em 1883.

 

Contudo, o facto de ter cursado Filosofia deixa-lhe a inquietude no dizer, nomeadamente e incessantemente, o quanto a arte de um povo é a sua alma viva (…) e esta quando atinge a sua expressão plena, torna-se património de toda a humanidade (…) justamente porque a arte é a alma falante e pensante do homem, e a alma não morre, sobrevive à existência física do corpo e do povo.

 

Refere-se que no seu romance “Fumaça” (1867) encontramos o desabafo de um homem cansado e descontente. Contudo, através da Arbor Litterae que é uma chancela de Estrofes & Versos, em 2010, chego à leitura do livro de Turguiéniev “ Diário de um homem supérfluo”.

 

Supérfluo (…) excelente esta palavra que encontrei. Quanto mais profundamente me esmiuço a mim próprio (…) mais me convenço da rigorosa verdade desta expressão. Um homem supranumerário – e é tudo.

 

Pareceu-me um alerta vivíssimo a todos os que a vida trata como hóspedes não esperados nem convidados: a todos os que sentem constantemente os seus lugares já ocupados por erro na procura do lugar onde deviam.

 

Recorde-se que o termo nihilista chega aos nossos dias com o significado de ausência de sentido, finalidade ou resposta em áreas muito diversas. Ainda assim, cai o pano, exactamente quando a vida se retira da luta, e se aniquila o próprio nihilista, justificando-se que assim deixa esta realidade, ela própria, de ser supérflua.

 

Dizia Ivan que a sua mãe era mulher oprimida sob o fardo das qualidades, atormentando toda a gente com a sua virtude, e afinal, esta grande causa da azáfama deste escritor consigo mesmo, também nos atinge, e sempre, pela sua obra generosa de grande pensador, sobretudo quando nos julgamos conhecer.

 


Teresa Vieira

PS – Creio desta feita ter chegado mais perto acerca do que me entusiasmou na leitura de Ivan Turguéniev.

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