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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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Lucien Kroll e a Maison Médicale

 

‘Diversity encourages creativity, repetition anaesthetizes it.’, Lucien Kroll

 

Diversas partes fragmentadas colam-se e comunicam no projeto que Lucien Kroll (1927) desenvolveu para a Maison Médicale (MéMé), em Bruxelas (1969-72). As acomodações para estudantes foram construídas de maneira a responder à forma de como os utilizadores gostariam de viver esse espaço. A abertura do processo de projeto motivou a sua forma desconexa e complexa. É ainda hoje, símbolo de uma arquitetura democrática, participada, informal, orgânica e por isso sempre incompleta.

 

Kroll possibilitou a criação de uma arquitetura que se gera a si própria e que é imprevisível. Existia um profundo desejo em criar uma comunidade; em explorar a ideal relação entre o projetista, o cliente e o utilizador; e em tornar a arquitetura como um meio de comunicação por excelência, disponível para todos.

 

‘I discovered that each one was different, and that attraction and aversion create a cityscape truer than any created on paper.’, Kroll

 

Kroll acredita que ao projetar um espaço, o arquiteto pode sugerir uma determinada dinâmica social. Afirma sim, um processo de projeto que não é de domínio exclusivo do arquiteto. O processo é partilhado e está sempre em mutação – é uma ação sempre aberta a novas necessidades e decisões provisórias e incompletas. Através deste processo, ao qual Kroll denominou de incrementalism, as grandes mudanças são feitas através de pequenas, diversas e sucessivas acções que se estendem no tempo.

 

O projeto do MéMé foi capaz de eliminar determinados desejos do movimento moderno – a abstração, o eternamente novo, a racionalidade, a universalidade, a artificialidade, a ordem, a proporção, a supremacia da técnica e da ciência, a grande escala, a centralização e a autoridade.

 

‘The contemporary attitude reconciles us: That attitude doesn’t expresses the rational but the relation through intelligent thought and emotions of the heart, the safeguard of ethnic culture, the love for the creative intelligence of the Middle Ages, homeopathic actions, the holistic vision of reality, evolution, the small scale of intervention, the curiosity in ethnic culture rather than in a technical culture, the anti-authority attitude, the urgent necessity to help our present “decision makers” to understand the historic times in which we are living.’, Lucien Kroll

 

O fluír contínuo da Maison Médicale (MéMé) permite abertura e comunicação entre todos os elementos construídos. Há lajes que se abrem, paredes que são cortadas, telhados de vidro por todo o lado, varandas e terraços comunicantes, diversas entradas e saídas. O MéMé é assim capaz de celebrar a vida em comunidade e contribuir para a construção de uma sociedade mais transparente, individualizada mas constantemente partilhada.

 

Ana Ruepp

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