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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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O CRISTO PENSADOR

 

Karl Rahner, talvez o maior teólogo católico do século XX, deixou escapar um dia, numa aula, uma daquelas observações que nunca mais se esquecem: na Igreja católica, é obrigatório confessar os pecados graves e mortais, mas ele não estava a ver que algum bispo ou padre ou superior religioso, ministro ou professor católico se tenha alguma vez confessado do pecado grave e, frequentemente, mortal, da ignorância culpada, da incompetência fatal, da inteligência irresponsavelmente menorizada.

Em geral, nas igrejas, faz-se pouco apelo à razão, à reflexão crítica, à pergunta. Como se a fé não tivesse de conviver com a inteligência, com a dúvida e com a pergunta. Os cristãos – mas isso acontece em todas as religiões – parece que ficam tolhidos na sua capacidade de perguntar. No entanto, Jesus morreu a rezar esta pergunta infinita que atravessa os séculos: “Meu Deus, meu Deus, porque é que me abandonaste?”, e o filósofo Martin Heidegger, um dos maiores  do século XX, escreveu que “a pergunta é a piedade do pensamento”.

Na catequese e nas pregações da Igreja, parte-se, desgraçadamente,  de um Cristo definido dogmaticamente e concebido à maneira de um robô, que chegou a este mundo já pré-programado e que não fez senão cumprir esse programa. Por isso, não precisou de pensar, não teve hesitações, não passou por tentações, não teve de decidir ele mesmo o que devia fazer para realizar a vontade de Deus, a quem chamava com ternura Abbá, querido Papá.

Na Igreja, valoriza-se a obediência, referindo constantemente aquele passo de São Paulo: “Cristo obedeceu até à morte e morte de cruz”. Mas quase nunca se explica o que é a obediência de Cristo, ocultando que, para obedecer a Deus e ao que Deus quer – dignidade, futuro, fraternidade, liberdade para todos –, teve de desobedecer aos opressores, nomeadamente a uma religião que, em vez de libertar, oprimia.

Tanto entre os crentes como entre os ateus e os sem religião, não faltam os que julgam saber, com saber certo, sem qualquer dúvida nem hesitação, o que Deus é, em que consiste a vontade divina para cada pessoa, qual é o sentido da História e do mundo. Entronizados no poder, definem dogmas, estabelecem normas e mandam com soberania inquestionável.

Os seres humanos são, por natureza, frágeis, carentes e, por isso, é quase inevitável que, entre a liberdade e a segurança, a maioria não hesite em escolher a segurança, como já aqui expliquei, referindo o diálogo entre o Grande Inquisidor e Cristo em Os Irmãos Karamázov, de Dostoiévski. O Grande Inquisidor disse a Cristo num calabouço do Santo Ofício, onde O tinha mandado prender: que O queima na fogueira como o pior dos hereges, e a razão é que a liberdade de fé tinha sido para Ele a coisa mais preciosa. Não foi Ele que disse tantas vezes: “Quero tornar-vos livres?” Cristo não percebeu que “o Homem não tem preocupação mais torturante do que encontrar alguém em quem possa delegar o mais depressa possível a dádiva da sua liberdade.”

“Em vez de Te apoderares da liberdade das pessoas, acrescentaste ainda mais à sua liberdade!”, diz-lhe o Inquisidor. Por isso, os hierarcas eclesiásticos corrigiram a façanha de Cristo, baseando-a em milagre e autoridade. Agora, todos sabem em que hão-de acreditar e o que devem fazer, sem terem de perguntar porquê nem de escolher. “E as pessoas ficaram contentes por serem de novo guiadas como um rebanho e por ter sido tirada dos seus corações a dádiva terrível que tanto sofrimento lhes causava.” Daí, a ordem do velho cardeal inquisidor: “Cristo, vai-te embora e não voltes mais… não voltes… nunca, nunca!”

Perguntar vem do latim percontari, que, por sua vez, terá na sua base contus, vara comprida. Então, perguntar, etimologicamente, quer dizer examinar o fundo de um rio ou de um tanque com um bastão e, portanto, sondar o interior da pessoa e da realidade.

Só o Homem pensa e pergunta. Lá está “O pensador” de Rodin. Um animal com a mão encostada à face ou a face entre as mãos, a cabeça inclinada e absorto, é um homem que pensa: tenta ver o seu interior e o mais fundo de tudo. Nenhum outro animal pensa nem se examina nem examina as consequências dos seus actos nem pergunta. O Homem pergunta, e a sua pergunta não tem limites. E é assim que, nesse seu perguntar, pode surgir a questão da transcendência e de Deus. Como escreveu Theodor Adorno, da Escola Crítica de Frankfurt, “o pensamento que se não decapita desemboca na transcendência”.

Por tudo isto, é uma surpresa boa encontrar em Vilnius algo típico da Lituânia, talvez porque é um povo que sofreu demasiado: umas pequenas estátuas de Cristo a pensar — o Cristo pensador. Estive uma vez em Vinius e a recordação que trouxe e que se encontra presente na minha mesinha de cabeceira é uma dessas pequenas estátuas.

Pensar vem do latim pensare, com o significado de ponderar, examinar, pesar argumentos e razões. Pensar pode ter também o significado de aplicar o curativo, os remédios necessários. E é assim que, em português, pesar também quer dizer solidariedade com a tristeza de alguém que sofre.

Neste contexto, quero prevenir que me parece que se pensa pouco, mas que, se todos os dias se dedicasse um pouco mais de tempo a pensar, muitos desastres pessoais e familiares teriam sido evitados. Também seriam evitados a nível colectivo, se os políticos se dedicassem a pensar verdadeiramente no bem comum e não ficassem confinados no mero pensar astucioso para ganhar eleições.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 7 AGOSTO 2021

2 comentários sobre “O CRISTO PENSADOR

  1. Reverendo Padre
    A montante da discussão sobre a divindade de Cristo, católico que já não sou dei comigo a pensar que seria interessante procurar demonstrar a existência de Deus através da dedução lógica, e não apenas acatando axiomas desta ou daquela Fé.
    Numa época dominada pelo conhecimento científico e em que cada vez menos gente se satisfaz espiritual e intelectualmente com imposições baseadas, unicamente, na obediência incontestada, importa fazer ver, a quem não crê, que a existência de Deus é questão demasiado importante para possa ser, eficazmente tratada arrimando-se, unicamente, em dogmas de uma ou de outra Fé; sobretudo, quando me parece ser a questão essencial facilmente provada de forma mais sustentada e cativante com recurso ao raciocínio de que Ele nos dotou e mandou mandou que utilizássemos e desenvolvêssemos.
    Foi o que, após longa reflexão, procurei fazer no Mosaicos em Português, em https://mosaicosemportugues.blogspot.com/2021/07/afinal-deus-existe.html, que com o maior gosto o convido a visitar e, se algo de válido encontrar no texto, a lá comentar o que lhe aprouver. No caso contrário, desde já lhe peço que perdoe o tempo que, indevidamente, o tiver feito gastar.
    Refleti, também, sobre alguns temas sociais e questões polémicas da língua portuguesa aos quais poderá Vossa Reverência querer alguma atenção dispensar.

  2. NA BUSCA DO SAGRADO…
    Queres-te cruzar
    Com o Sagrado?
    Minha amiga
    Meu amigo
    Meu amado?
    Olha-O no sorriso
    Dos que nada têm
    E olha também
    O vazio riso
    Dos que tudo têm
    Olha-O na alegria
    Dos que nada têm
    E olha também
    A melancolia
    Dos que tudo têm
    Olha-O no olhar profundo
    Dos que nada têm
    E olha também
    O ar imundo
    Dos que tudo têm
    Olha-o na serenidade
    Dos que nada têm
    E olha também
    A insaciável voracidade
    Dos que tudo têm
    Queres-te cruzar
    Com o Sagrado?
    Minha amiga
    Meu amigo
    Meu amado?
    Olha-O
    E dá graças
    Por o poderes olhar
    Que os senhores do mundo
    Não no-lo podem tirar
    Olha-O
    Na gratidão
    Dos empobrecidos
    E no perdão
    Dos ofendidos
    Olha-O
    Na dor
    Dos magoados
    E no amor
    Dos apaixonados
    Olha-O
    Na suavidade
    Dos sozinhos
    E na criatividade
    Dos ninhos
    Olha-O
    Na esperança
    Do doente
    E na criança
    Contente
    Olha-O
    Na profundidade
    Da alma sofrida
    E na eternidade
    Da vida
    Queres te cruzar
    Com o sagrado
    Minha amiga
    Meu amigo
    Meu amado?
    Olha-O
    E dá graças
    Por o poderes olhar
    Que os senhores
    Do mundo
    Não no-lo podem tirar
    PS: aceite em ” The Stories We are Contest – Economy of
    Francesco ” 2023
    SPA,2024

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