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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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PAUL VALÉRY

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TEL QUEL

 

Tenho, por “Tel Quel”, este livro raro de Valéry, edição da Gallimard de 1941, uma quase obstinação de o reler com regularidade.

Valéry, desde a sua juventude, interroga-se sobre a natureza do pensar, os limites do mesmo e modo de funcionar das ideias, procurando até em Léonard de Vinci a fórmula universal que pudesse explicar ou descortinar a reflexão do pensamento.

A poesia de Valéry é uma verdadeira celebração da procura que acima menciono, é mesmo uma «fête de l´íntellect» como ele próprio afirma, focando as sensações da abstracção de uma magia poética completamente dominada.

Creio que na indeterminação que me provocam as reflexões de Valéry neste livro, fica claro o começo da complexidade enquanto princípio rico e que não constitui o oposto de simplificação. Será sempre preciso juntar e dissociar coisas sem perder a procura do que permite articular, coordenar, desordenar numa combinação activa de interacções. A ideia-chave, o nascimento da organização do nosso universo interior é em si um processo de agitação de núcleos e de átomos que juntos hão-de pensar o pensamento, assente numa auto-organização original que faz face à razão e à «desrazão» do homem.

Não tenho chaves, mas não me sinto prisioneira nem mesmo das fórmulas matemáticas. Ao reler “Tel Quel” o meu empreendimento é sempre não-redutivo; e se é verdade que há um ponto de origem, o postulado contrário leva-nos a não desprezar que inventámos conceitos para pensar o mundo físico.

Compete-nos a nós, leitores do génio de Valéry, entender a praxis científica e a cultural, a desintegração inseparável da reintegração. Penso o poema, o esforço sempre recomeçado, o risco no limiar da morte da palavra menos assertiva, e as potencialidades que sempre decorrerão do risco profundo da vida mental e da criatividade se constituir sempre nos limiares das fronteiras de loucura e mesmo morte.

Aceitar na vida o risco, é aceitar o poder criar, o poder de expandir a comunicação e amar.

É certo que se necessita de segurança materiail, tão certo quanto a possibilidade de qualquer célula degenerar. Contudo ao lado, sempre ao lado e de mão dada com a imprescindível segurança, a grande atenção à realidade do que poderá existir em nós afinal mais velho do que a morte.

 

E de “Tel quel”

 

Apprends à lire ton Esprit, et tout le reste vient par surcroît.

 

La jeunesse est finie dès que ce que je pense s’imprime dans ce que je fais – tandis que ce que je fais s’incruste dans ce que je pense.

Toute morale repose, en définitive, sur la propriété humaine de jouer plusieurs personnages.

 

L’angoisse – revanche des pensées inutiles et stationnaires, et des va-et-vient que j’ai tant méprisés

 

E assim dos pensamentos e aforismos de Valéry se desenvolvem pensamentos de um rigor extraordinário, de um método de investigação de uma raríssima acuidade.

 

Teresa Bracinha Vieira
2016

 

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