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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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POESIA ÁRABE

Grande Mesquita de Kairouan.JPG
 Grande Mesquita de Kairouan (Tunísia)


1. ´ADI IBN ZAYD

Desconhece-se a data de nascimento de ´Adi ibn Zayd, situa-se a da sua morte em 604. Era um cristão árabe pré-islâmico, poeta na corte do rei de Hira, capital dos Lakhmidas, vassalos dos Persas Sassânidas, e centro cristão, maioritariamente nestoriano, situado nas margens do Eufrates, onde se cultivava um dialecto árabe evoluído e literário. Este poema segue a métrica “ramal”, de verso ornamentado, que não se reproduz em português. Assim, embora perdendo o ritmo e a rima árabe, procurei acentuar o vivo sentimento da efemeridade, condição humana. 

 

            Vedes, vós que passais, estes túmulos?

 

      Cavaleiros que vos esforçais

      para sobre o chão apressar

      o passo das vossas montadas

      cujos pés na areia

      surdamente se enterram :

      fomos nós, como vós,

      apressados viajantes,

      e vós, como nós,

      um dia chegados

      ao termo da viagem,

      em túmulos vos deitareis…

 

      Muitos outros cavaleiros

      pararam neste lugar e alegres

      beberam o vinho puro

      com clara água misturado.

 

      Foi-se a manhã

      e veio a hora

      em que o sol é todo brilho…

      O século os escolheu

      para brinquedos do seu descuido,

      e desapareceram…

      Com os homens todos

      assim se comporta o século

      e sem fim os leva

      de um a outro estado…

 

As duas rimas deste poema, em árabe, são em ûn e âli , conforme o texto publicado em Beirute, que serviu para as versões, em prosa, francesa e inglesa, onde me inspirei, procurando ser fiel ao poema original  –  que imaginei?  –  por um esforço de “transmigração” ou, melhor talvez, de procura de comunhão. Vale o que vale, mas foi-me gratificante. 

 

Camilo Martins de Oliveira

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