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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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Exéquias de Fernando Pessoa

O reconhecimento tardio e póstumo

Todos trazemos e levamos uma história digna de ser reconhecida.  

Há vidas que, enquanto vivas, passam anónimas, despercebidas, discretas e silenciosas diante do mundo, embora imensas e intensas dentro de si.

Peregrinam à margem do aplauso, do elogio, do louvor, da hagiografia, sem se imporem, só se dando pela sua presença após a sua ausência, muitas depois de partirem.

Surge, tantas e tantas vezes, aquele reconhecimento tardio e póstumo de que “só se aprecia o bem que tínhamos e o bom que era” após um adeus para sempre ou pelo não estar.     

Vai-se a presença e acorda a ausência, num reconhecimento tardio ou póstumo, passado o momento em que seria mais gratificante e relevante ou no período post mortem.   

Será que é mais fácil maravilharmo-nos com o que está longe do que com o que está na nossa frente ou perto de nós? Valorizamos mais o que é chamativo, impactante, transgressor e indiscreto, que o que é discreto, quotidiano e não se impõe? Mesmo quando também se cria, inova e inspira?

Quiçá, porque, na nossa rotina, baralhamos frugalidade, humildade, simplicidade e sobriedade com falta de ambição, grandeza, orgulho e de confiança.              

Muitas vezes, só quando alguém parte ou se ausenta, se valorizam atitudes, gestos e vidas em profundidade, porque só então o que era banal, discreto, ignorado, moderado, simples e sóbrio se revela essencial e inegável. O que antes era tido como comum e usual, tornou-se incomum.          

O ideal é reconhecer hoje, quem merece ser reconhecido, celebrando em vida o que há que reconhecer e ser valorizado, apesar de muitos só terem um reconhecimento póstumo. Entre nós, Fernando Pessoa é um caso emblemático: após uma existência incógnita, foi trasladado do Cemitério dos Prazeres para o Mosteiro dos Jerónimos, onde repousa com Camões e Vasco da Gama.

Porém, se os textos e livros sapienciais nos lembram que somos mortais, que devemos transformar o facto de termos os dias contados em fonte de sabedoria, se é impossível viver sem os outros e se o tempo do afastamento pode ser transformado em tempo para uma presença que perdura, há que apelar, como último recurso, à vinda do reconhecimento, mesmo que tardio ou póstumo, ao invés do reconhecimento que não veio, nem nunca vem, porque cada indivíduo, como ser humano, tem uma expetativa inata de ser objeto do bem.

Joaquim M. M. Patrício
Crónica Pluricultural n.º 265 

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