“O medo é aquilo de que tenho mais medo”
Montaigne
Como coabitar com poderes que não dominamos?
A IA é um poder imenso que nos vai colonizando a cultura se nela delegarmos quase tudo, como cumpridores prisioneiros que, afinal, sempre desconheceram como se habita a liberdade.
E surge e reside a IA, na origem de um novo medo.
E até onde fomos delegando na tecnologia para que fosse ela a encontrar e a dar as soluções, sem que se refletisse que o domínio sobre um problema não é o mesmo que saber habitar com ele, não é o mesmo que coabitar com o desconhecido.
Vive-se em sociedades de medos múltiplos, nas quais o estrangeiro é quem deve ser sacrificado, exatamente para exorcizar os medos ignorantes; podendo até este estrangeiro ser apenas um irmão que é diferente, e logo basta para que se possa despoletar a violência contra ele, quando ainda não se descobriu o quanto só os desamparados de si mesmos a usam como significado do impotente medo que os move.
Tudo se relaciona, e pouco se ouve o aviso de quanto o excesso de tecnologia de hoje gera terríveis e incalculáveis ausências prenhes de medos encobertos.
Na realidade, quando alguém está constantemente ao telefone, esse alguém está ausente e continuará assim quando a submissão a múltiplos GPS lhe provocar os efeitos nefastos de outras tantas ausências.
Existe, sim, nas tecnologias de hoje, um certo nível de conforto que constitui também uma armadilha, fazendo com que as pessoas percam progressivamente a possibilidade de serem protagonistas.
Mais: as pessoas recusam-se mesmo a ser livres se não identificam os medos e, a todos eles, se juntam as engrenagens que destroem o quotidiano; e, a todas as engrenagens, junta-se a da tentativa de laceração do humano.
Para já, resta-nos o presente, e ele não pode ser mera imagem de destino.
Teresa Bracinha Vieira