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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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"Quatre Aventures de Reinette et Mirabelle" (Eric Rohmer, 1986)

“Quatre Aventures de Reinette et Mirabelle” – dualidades que se complementam,espaços que se contrapõem

Os filmes Le Rayon Vert (1986) e o Le Signe du Lion (Eric Rohmer, 1959), de Eric Rohmer representam um caminho para a luz e para a redenção. O filme Quatre Aventures de Reinette et Mirabelle (Eric Rohmer, 1987) apresenta uma indagação inversa – da luz move-se para o silêncio, do sublime para a realidade, da abertura para o enclausuramento.

Esta é a história das amigas Reinette e Mirabelle, uma do campo e a outra da cidade, e das suas experiências ao confrontarem-se com o ambiente uma da outra. O filme é composto por quatro histórias – L’Heure Bleue; Le Garçons de Café; Le Mendiant, la cleptomane, l’arnaqueuse; e La vente du tableau – passadas em lugares e espaços singulares.

A primeira história é sobre a possibilidade de uma manifestação rara da natureza – a hora azul – unir duas personagens distintas. Este momento de silêncio absoluto, experienciado no meio da natureza, programa, na opinião de Alain Philippon no artigo ‘Quatre Aventures de Reinette et Mirabelle’ (Cahiers du Cinema, Hors-Série n.7) o filme inteiro, e lança os temas do silêncio, da moral e da justiça. Tal como em Le Rayon Vert, neste filme existe um momento mágico, uma apoteose que vai clarificar, eliminar dificuldades e mudar o curso de uma história. Mais uma vez uma realidade exterior, nos filmes de Rohmer, traz possibilidades e realização. Porém neste filme, esse momento dá-se no início, marca o princípio de uma história e sublinha o começo de uma amizade. A partir deste momento Reinette e Mirabelle passam a viver no mesmo apartamento em Paris e Reinette passará a estar fora do seu lugar.

No campo, Mirabelle fora apresentada às glórias da natureza e foi-lhe negada qualquer tipo de apropriação (Tester 2008, 69), agora é a vez da vida de Reinette ser moldada pela cidade. A partir do instante da hora azul, os seus princípios e ideias predeterminadas serão postas à prova. Será na cidade, que Reinette irá colocar em prática as suas exigências morais que lhe guiaram, até então, na sua vida rodeada pela natureza.

O filme explora, assim dualidades que se complementam, espaços que se contrapõem. A natureza contrapõe-se à cidade e os princípios que regem a vida no campo opõe-se à vida movimentada e fluída da cidade.

A natureza neste filme simboliza, deste modo a dádiva de momentos raros, o trabalho árduo e o respeito pela constante transformação da natureza. A casa de Reinette é reflexo dessa vivência mais intuitiva, mas sólida e de algum modo previsível – a disposição feita pelo tempo, pela conveniência, por aquilo que já existe, com os materiais disponíveis – e irá contrastar com a vida na cidade.

Na cidade, são, o apartamento de Mirabelle, a rua, a esplanada do café, o supermercado, a estação do comboio e a galeria, que descrevem a cidade vivida e experienciada por Reinette e Mirabelle.

O apartamento de Mirabelle é pequeno e enclausurado, só existe uma janela para o exterior de onde se veem telhados e consegue-se adivinhar a Torre Eiffel. É aí nesse apartamento, que Reinette ainda preserva e expõe demoradamente as suas ideias preconcebidas de modo a fazer com que as pessoas possam ser confrontadas com os seus próprios erros e falhas, só assim, na sua opinião a sociedade poderá ser melhor.

A rua representa a possibilidade de pôr as suas ideias em prática, a incerteza, e traz por isso momentos de desorientação e de falta de direção – antes de encontrar o café, para ir ter com Mirabelle, Reinette pede ajuda para encontrar a rua que pretende, mas é confrontada com informações díspares e confusas.

A esplanada do café, o supermercado e a estação de comboio põem à prova a intransigência dos seus princípios morais. Estes são lugares de movimento, encontro e cruzamento. Alain Philippon escreve que estes são espaços cujo campo social, por excelência, se alarga e por isso vai obrigar Reinette a colocar-se no lugar das pessoas que critica e que julga.

No café a sua lição e o seu gesto não encontra nenhum eco. (Heredero e Santamarina 1991, 253). O supermercado mostra a fluidez e a desorientação de princípios de Mirabelle e confirma mais uma vez a rigidez dos princípios de Reinette.

A estação de comboio vai obrigar Reinette a ser mais benevolente e compassiva com a pedinte que a engana. E finalmente, a galeria concretiza o culminar de uma situação embaraçosa e restritiva na qual Reinette se coloca, ao afirmar-se segura dos seus ideais aleatórios e desprovidos de sentido. O espaço da galeria, completamente encarcerado, simboliza essa prisão onde vive Reinette – pelo contrário, a galeria poderia representar a sua libertação ao ser o lugar de expressão máxima para as suas pinturas, mas vai confirmar ser um momento de maior constrangimento.

O filme apresenta, pois, reflexões sobre o mundo dos valores e da sua validade local — comportamentos ou crenças que são considerados óbvios num contexto podem não ter o mesmo valor ou utilidade noutro contexto – e a noção do que é bom e do que é mau também pode alterar-se em conformidade.

De facto, a vivência e o contacto direto com a natureza possibilita a participação em fenómenos raros, mas a vida na cidade de Rohmer abre-se aos sonhos, às aspirações, às ilusões e às incertezas dos seus personagens pois obriga a um encontro constante com o outro, com o desconhecido e com aquilo que faz estremecer os princípios de cada um. A cidade que Rohmer apresenta, ajuda a moldar e a questionar constantemente, e torna possível conceber de maneira nítida de que é através das diferenças e da pluralidade que se afirma um todo.

Sendo assim, este filme demonstra através da banalidade e a aproximação quase documental à realidade, conseguida pelo improviso, que não existem princípios absolutos nem um só caminho define uma cidade. A cidade e todo o mundo exterior de Rohmer, são espaços do acaso e do imprevisível pois só assim o milagre e a transformação poderão surgir.

“The Blue Hour’s impact upon them is magical and transforming: the two heterosexual girls search for each other in a garden at night, in the dark, feeling their way through the unpredictable world, searching for whatever in the future awaits them: madness, solidarity, or a deep friendship that arises from out of the most accidental of encounters (Mirabelle’s bicycle getting a puncture as Reinette walks home).“ (Tester 2008, 71)

Ana Ruepp

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