Folhetim de Verão – Capítulo XV
Tudo leva crer que tenha nascido em Tavira, no dia 15 de outubro de 1890, à 1 e meia da tarde. Com uma educação vulgar de liceu, Álvaro de Campos foi enviado para a Escócia a estudar engenharia primeiro mecânica, depois naval. Viajou até ao Oriente, de onde resultou “Opiário”. Aprendeu latim com um tio beirão, padre. Vagamente judeu português tinha pele branca e morena, cabelo liso apartado ao lado, e usava monóculo. Pessoa, quando escrevia em nome de Campos sentia um súbito impulso e não sei o quê. “De repente e em derivação oposta à de Ricardo Reis surgiu impetuosamente um novo individuo. Num jacto e à máquina de escrever, sem interrupção ou emenda, surgiu a “Ode Triunfal”, a “ode com esse nome e o homem com o que o homem tem”. Aquando da publicação de “Orpheu”, foi preciso à última hora arranjar qualquer coisa para completar o número de páginas. Pessoa sugeriu a Sá-Carneiro um poema “antigo” do Álvaro de Campos, Tratou-se de um poema como o Álvaro de Campos seria antes de ter conhecido Caeiro e ter caído sob a sua influência. “E eu vou buscar ao ópio que consola / Um Oriente ao oriente do Oriente». Assim nasceu “Opiário”, onde se manifestam as tendências latentes de Campos, como haviam de ser depois revelada, mas sem haver ainda qualquer traço de contacto como mestre Caeiro. Fernando Pessoa confessa que foi dos poemas que me deu mais que fazer, “pelo duplo poder de despersonalização que tive de desenvolver. Mas, enfim, creio que não saiu mau, e que dá o Álvaro em botão”.
Mas a magnificência aqui se manifesta, em plenitude.
«À dolorosa luz das grandes lâmpadas elétricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes. Fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida doa antigos.
Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora.
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!
(…)
Eia! Eia! Eia!
Eia eletricidade, nervos doentes da Matéria!
Eia telegrafia sem fios, simpatia metálica do Inconsciente!
Eia túneis, eia canais do Panamá, Kiel, Suez!
Eia todo o passado dentro do presente!
Eia todo o futuro já dentro de nós! Eia!
Eia! Eia! Eia!
Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita!
Eia! Eia! Eia! Eia-hô-ô-ô!
Nem sei que existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me.
Engatam-me em todos os comboios.
Içam-me em todos os cais.
Giro dentro das hélices de todos os navios.
Eia! Eia-hô! Eia!
Eia! Sou o calor mecânico e a eletricidade!
Eia! E os rails e as casas das máquinas e a Europa!
Eia e hurrah por mim-tudo e tudo, máquinas a trabalhar, eia!
Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá!
Hup-lá, hup-lá. Hup-lá-hô, hup-lá!
Hé-lá! He-hô! H-o-o-o-o!
Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!
Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!»
E fica o mistério como é que um Engenheiro se deixou encantar por um simples guardador de rebanhos…
(Continua)
