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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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Um génio chamado Amadeo…

Folhetim de Verão – Capítulo XXV

A Fundação Calouste Gulbenkian salvou para a eternidade a obra de um dos maiores génios do modernismo europeu. Transcrevemos, no essencial a nota de Joana Cunha Leal sobre tão essencial autor. 

 «Amadeo de Sousa-Cardozo nasceu na quinta dos seus pais em Manhufe, no concelho de Amarante, a 14 de Novembro de 1887. Cresceu entre nove irmãos, no seio de uma família de abastados proprietários rurais. Passou a sua infância entre a casa de Manhufe e as estâncias de veraneio na praia de Espinho. Aí conheceu Manuel Laranjeira, cuja amizade foi determinante para incentivar a prática do desenho, que Amadeo desenvolveu depois em Lisboa, no âmbito dos estudos preparatórios de Arquitetura na Academia de Belas-Artes de Lisboa. Estávamos em 1905. A viagem para Paris, em Novembro do ano seguinte, na companhia de Francisco Smith, não tinha data de regresso marcada. Financiado pelos pais, Amadeo instalou-se no Boulevard Montparnasse e tratou de preparar o concurso à École des Beaux Arts. Contudo, o ambiente parisiense reforçou a sua inclinação para o desenho e a caricatura, contribuindo para afastá-lo de vez do campo da Arquitetura. Particularmente influenciado pela ilustração que circulava na imprensa francesa, Amadeo não tardará a dedicar-se ao desenho e à pintura. 

Os primeiros anos de estadia em Paris ficaram marcados pelo convívio com outros portugueses emigrados. O estúdio que alugou no 14, Cité Falguière converteu-se num espaço de tertúlias e boémia com a presença assídua de artistas como Manuel Bentes, Eduardo Viana (que o acompanhará em 1907 numa viagem à Bretanha), Emmérico Nunes, Domingos Rebelo e Smith. Este convívio regular não durou muito. O final de 1908 e o início do ano seguinte trazem importantes alterações à vida de Amadeo: conhece Lucia Pecetto (1890-1989), com quem casará em 1914, e começa a frequentar as classes da Academia Viti, do pintor espanhol Anglada-Camarasa (1871-1959). Muda então o seu atelier para a rue des Fleurus num espaço contíguo ao apartamento de Gertrude Stein. Estas alterações terão contribuído para distanciá-lo do circuito dos artistas portugueses. Mas esse afastamento voluntário parece traduzir, antes de mais, um corte de sentido plástico, uma vontade de romper com a “rotina atrasada” que lhes atribui. O nível de exigência e de comprometimento com o trabalho que já então ia produzindo remetem-no para uma esfera sem paralelo na pintura dos portugueses, porque Amadeo mergulha plenamente nas pesquisas do modernismo internacional em desenvolvimento em Paris. É nesse contexto de investigação formal que, em 1910, o veremos entusiasmado com as pinturas dos “primitivos” flamengos (numa estadia de três meses em Bruxelas). É neste período também que o veremos aprofundar a sua amizade com Amedeo Modigliani (1884-1920). 

Em 1911, Amadeo muda outra vez de estúdio. Instala-se próximo do Quai d’Orsay, na rue du Colonel Combes. Em Outubro realiza neste espaço uma exposição com Modigliani. Esta não seria, contudo, a primeira exposição da sua obra. Alguns meses antes, Amadeo apresentara um conjunto de seis pinturas no Salon des Indépendants. Volta a expor neste Salão no ano seguinte e em 1914. De igual modo, mostra o seu trabalho no Salon d’Automne entre 1912 e 1914. Entretanto, o seu círculo de amizades e conhecimentos estende-se e internacionaliza-se. Conhece Umberto Boccioni (1882-1916), Gino Severini (1883-1966), e Walter Pach (1883-1958), que mais tarde o convidará a participar no Armory Show. Está também em contacto com Juan Gris (1887-1927), Max Jacob (1876-1944), Sonia e Robert Delaunay, Brancusi (1876-1957), Archipenko (1887-1964), Umberto Brunelleschi (1879-1947) e Diego Rivera (1886-1957), entre outros. 

O interesse de Amadeo pelo desenho consolida-se neste período com a preparação do manuscrito ilustrado da Légende de Saint Julien l’Hospitalier* de Flaubert e pela publicação do álbum XX Dessins (reeditado pelo CAM em 1983) com prefácio de Jérôme Doucet, álbum que mereceria uma apreciação muito favorável do célebre crítico Louis Vauxcelles. 

Amadeo esforçar-se-á também por mostrar a sua pintura fora do circuito parisiense. Os contactos que estabelece nestes anos permitir-lhe-ão participar numa série de importantes exposições de grupo, entre as quais a célebre Exposição Internacional de Arte Moderna de 1913, também conhecida como Armory Show, que mostraria pela primeira vez a moderna arte europeia nos EUA (Nova Iorque, Chicago e Boston). Amadeo apresenta um total de oito obras, ao lado de Braque (1882-1963), Matisse, Duchamp (1887-1968), Gleizes (1881-1953), Herbin e Segonzac (1884-1974). Três das suas telas foram compradas pelo colecionador de Chicago, Arthur J. Eddy, o qual, ao publicar Cubist and Post-Impressionism (1914), cita e reproduz algumas das obras do pintor português, destacando-o pelo seu colorido. Outros importantes contactos vão levá-lo à Alemanha. Em Setembro de 1913, já depois de outra mudança de estúdio (que o leva a instalar-se em Montparnasse, na rua Ernest Cresson), estará representado no I Herbstsalon de Berlim, organizado pela Galeria Der Sturm. Amadeo já havia trabalhado com esta galeria berlinense em Novembro de 1912, data em que pela primeira vez expôs no seu espaço. É muito provável que em 1914 tenha participado em mostras em Colónia e Hamburgo e é certo que em Abril desse mesmo ano enviou 3 trabalhos para a Royal Academy de Londres, tendo todavia a exposição sido cancelada com o deflagrar da Guerra». 

(Continua)

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