Folhetim de Verão – Capítulo XXVII
O Anjo é uma das obras mais icónicas de Paula Rego, revelando-se como uma verdadeira síntese de toda a sua produção artística – a artista chegou a afirmar que esta seria a pintura que levaria quando partisse. De facto, no final da vida, cuidou especialmente do seu destino. Em homenagem à ligação muito especial que teve com a Fundação Gulbenkian, desde os primeiros passos à maturidade, tudo fez para que a obra ingressasse na coleção do Centro de Arte Moderna.
Trata-se da figura de uma mulher poderosa, identificável como um «Anjo», paradoxalmente, vingador e piedoso, que segura nas mãos a espada e a esponja, símbolos da Paixão de Cristo ou da sua força julgadora. Há, assim, um profundo misticismo nesta imagem, que deve ser vista em paralelo com a representação na Capela do Palácio de Belém do Ciclo da Virgem Maria, com oito quadros a lápis de a pastel: Anunciação, Parto de Maria, Adoração do Menino Jesus, Purificação no Templo, Fuga para o Egipto, Lamentação ao Pé da Cruz, Pietá e Assunção.
Paula Rego atinge, com este ciclo mariano, uma intensa transparência religiosa, onde o entusiasmo da criança inunda de imaginação as cenas narradas e onde as feridas da vida espalham inocência livre e emancipadora. Claro exercício ascético é este de condensar a sua história nos rostos, nas expressões, nos gestos e nas vestes das figuras selecionadas, em amalgamado jogo de abertura a uma transcendência percebida na encarnação histórica, como é a cristã. A transparência da autêntica religiosidade deste ciclo é um passo feliz na difícil tarefa de representar e comunicar o mistério do ser humano. Inquieta-nos sobre o sentido da vida e põe-nos no umbral do Mistério, atraídos por uma beleza interpelante – no dizer do bispo D. Carlos de Azevedo.
“O Anjo”, não sendo um autorretrato, é uma imagem forte que se identifica com o sentido interventivo do seu trabalho: entre a proteção e a vingança, o castigo e o perdão. Esta obra integra uma série de trabalhos sobre o romance português O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queiroz, e é exemplo do modo como a artista intervém ficcionalmente sobre a história. Este romance, de leitura proibida causou protestos da Igreja católica por tratar da polémica questão do celibato clerical e da morte consentida dos recém-nascidos ilegítimos, ofereceu à artista matéria ficcional privilegiada.
Paula Rego desenvolve um diálogo não ilustrativo com o romance recorrendo a todos os recursos plásticos da tradição pictórica pré-moderna para caracterizar os personagens, expô-los na fragilidade da sua conduta ética e moral e desenvolver uma leitura subversiva. Não se trata tanto da condenação dos atos, mas da acutilante e dolorosa revelação dos rituais de poder, submissão e cumplicidade entre os sexos e as classes. Desde logo na figura de Amaro, o padre fraco e pecador, ambíguo e maligno.
A tela foi adquirida em fevereiro de 2022, juntamente com a pintura O Banho Turco (1960) – esta última realizada no verso do retrato da artista, pintado por Victor Willing, seu marido. A citação crítica da pintura neoclássica de Ingres, presente no próprio título, realizada em diálogo ou em resposta ao retrato de nu, poderá ser compreendida como primeira e subtil sinalização, de uma forte consciência feminista. A aquisição aconteceu numa altura importante da carreira internacional de Paula Rego, com a recente exposição na Tate Britain (2021), no Kunstmuseum Den Haag (2022) e no Museo Picasso Málaga (2022). Como se compreende ligar à Nau Catrineta o testemunho de Paula Rego? Estamos no cerne da cultura portuguesa complexa. Vejam-se os temas fundamentais: o milagre da Nazaré, as provações trágico-marítimas, as tentações demoníacas, a persistência do Capitão General, a chegada a porto seguro, o encontro entre a dignidade da mulher e a determinação na busca de um destino humano. A Nau Catrineta reúne estes diversos temas que o anjo simboliza – tradição, modernidade, cosmopolitismo, provincianismo, inconformismo e desassossego.
(Continua)
