Folhetim de Verão – Capítulo VIII
Esta história conta-se em poucas palavras. Como já dissemos, Almada Negreiros abraçou com mãos ambas o projeto de realizar os painéis das duas Gares Marítimas. O espírito que presidiu aos dois casos era o mesmo: homenagear o povo português e a sua cultura genuína. Houve, por certo, uma conversa longa com António Ferro, e inicialmente Duarte Pacheco falou de um projeto grandioso que representasse Portugal. Não houve muitos pormenores e Almada compreendeu plenamente o que se pretendia. Estava para traz a Exposição do Mundo Português (1940) e o tempo era claramente outro, por várias razões. No primeiro caso, do Cais de Alcântara, estava-se em plena guerra, o ambiente geral era pesado, prevalecem os mitos e por isso o grande tema é a “Nau Catrineta”, começando nas origens da nacionalidade pelo primeiro dos Almirantes da Marinha Portuguesa – D. Fuas Roupinho na Nazaré. O que estava em causa? Não uma glorificação, mas a compreensão do motivo por que o mar atrai os portugueses, logo desde as origens da nacionalidade e antes dos séculos camonianos. Almada sentiu-se à vontade na relação com o mito e na compreensão não de uma história idílica, mas da interpretação de uma Tragédia. Importava conhecer a História Trágico-Marítima, possível em 1940, quando a guerra trocou as voltas às comemorações centenárias. Mas o pintor estava claramente num outro espírito, entre o cubismo e a reflexão social de Portinari. Havia, no fundo, que pintar a outra face do drama da Nau Catrineta. A Europa saíra e as suas raízes, mas sobretudo os seus dramas. Nada melhor do que ir à realidade da história, representar o sacrifício e a provação, o drama dos marinheiros que chegam a propor comer os antigos companheiros. Não havia braços ao alto ou glórias irreais, mas o drama real, o demónio a querer comprar a alma do Capitão General e este a resistir, como está escrito em dois locais fidedignos: uma canção popular transmitida de boca em boca e a história trágica de desespero pouco conhecida, complemento natural da aventura dos mares. Talvez ficasse a dúvida sobre se a interpretação era a melhor. Mas foi a que ficou, sem qualquer ilusão, feita de lirismo e de angústia. Todos esses ingredientes estão lá, faltaria talvez o império, as velas enfunadas, mas havia marinheiros e a relação difícil com a partida e a chegada. Entretanto, a guerra termina. Havia que fazer os novos painéis na outra Gare. Almada Negreiros não deixa de pensar e as ideias também fluem. O espírito do tempo é outro. Duarte Pacheco ainda tem na memória os ecos de 1940. Talvez pudesse haver agora a mitificação que não tinha sido devastada da guerra. Havia os dramas humanos da reconstrução. Havia fome e injustiças, havia racionamento, mas a cidade era um lugar de novos encontros e novos problemas. O riso trágico já não é o da tragédia marítima, mas dos saltimbancos que chegam e se divertem, mas dos recém-chegados que não têm o dinheiro que lhes faz falta. Almada está atento ao que se passa na Europa, em Paris, no mundo. E abre um novo capítulo nas temáticas. Chegam, porém, aos ouvidos dos encomendantes que agora a temática dos painéis está muito longe da História celebrada. Em vez de velas e dos símbolos heroicos, há funâmbulos, cenas de circo e peixeiras. Salazar dá uma palavra a Ferro, para que limite o pendor crítico de seu amigo Almada. Ferro sabe que isso é impossível e não deseja um conflito…
(Continua)
