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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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Memória de cinco séculos…

Folhetim de Verão – Capítulo XI

Em 1970, ano da sua morte, Almada Negreiros assistiria ao leilão de Retrato de Fernando Pessoa, 1954; o valor da venda, invulgarmente alto para a época, confirmou a reputação do pintor na fase final da sua vida. Com a dissolução do Restaurante “Dois Irmãos” por insolvência, teria lugar um leilão do património no dia 14 de janeiro de 1970. Depois de uma primeira licitação de 50 mil escudos, a tela atingiria os 1350 contos em poucos minutos, um valor absolutamente impensável em transações de pintura em Portugal. Quem licitou foi Joachim Mitnitzky, antiquário e decorador, que agiu em representação da sociedade que detinha com Bernardo Menezes, uma das mais famosas casas de decoração e antiguidades na Lisboa da época e que foi responsável, pouco tempo depois, pela substituição das pinturas do café «A Brasileira», no Chiado, numa outra operação, até aos dias de hoje, absolutamente única em Portugal.

O valor atingido surpreendeu os próprios compradores, que julgaram poder adquirir a pintura pelo valor máximo de 700 contos mas que tiveram a coragem, como Mitnitzky referiu, de não hesitar. Estavam presentes outros compradores igualmente interessados, que desistiram perante o montante atingido. E o valor atingido surpreenderia ainda mais o próprio Almada que, do lado de fora do leilão, assistiu ao desenrolar dos acontecimentos. O artista conhecia o crescendo de interesse em torno da sua pintura. A Fundação Gulbenkian procurara adquiri-la anos antes mas, face ao valor de 400 contos pedido pelo proprietário do restaurante, preferira encomendar a Almada uma segunda pintura, que este executou em 1964. 

De composição e cromatismo semelhantes, as versões de 1954 e 1964 são praticamente simétricas, mas diferenciadas. E a chave misteriosa aí está. Lembramo-nos da ligação antiga de Almada aos painéis de Nuno Gonçalves. E o certo é que o efeito de espelho assemelha-se ao da figura repetida de S. Vicente. Do mesmo modo o chão envolve duas referências: uma clássica, a perspetiva que levou à reordenação dos painéis de Nuno Gonçalves, mas igualmente a representação do tecido do arlequim que Almada Negreiros desenhara em 1922.

Eis por que razão este segundo quadro de Fernando Pessoa é próximo e diferente do primeiro. Não apenas nos tons, mas na luz, e na evocação dos célebres painéis de Arte Antiga. Na sua pluralidade, Almada Negreiros teve consciência de que com esta representação de Pessoa se tratava de um dos grandes retratos da pintura portuguesa, e uma das suas obras mais significativas, ligando Orpheu aos primitivos da modernidade, numa iconografia que só ele teria o direito de propor. Dir-se-ia tratar-se de uma iconografia comum a Almada, a Pessoa, ao Orpheu e à cultura portuguesa eterna, que será completada com o genial painel “Começar” da Gulbenkian com que Almada quis encerrar a sua presença no mundo.

O banqueiro e colecionador Jorge de Brito viria a comprar o quadro a Mitnitzky para o oferecer à Cidade de Lisboa, constituindo o quadro um ícone fundamental do património cultural português, em especial homenageando o poeta que no início dos anos setenta do século XX se tornava um autor fecundo de uma obra recém descoberta – mercê de uma célebre arca plena de tesouros. Nascia o “Livro do Desassossego” do semi heterónimo Bernardo Soares e abria-se um novo entusiasmo por essa obra inesperada, que enriquecia o mundo dos heterónimos de Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis.

(Continua)

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