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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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João Gaspar Simões, José Régio e António José Branquinho da Fonseca

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A Vida dos Livros

Centenário da Revista Presença

Iniciam-se as comemorações do primeiro centenário da Revista Presença, fundada em 1927 por José Régio e Branquinho da Fonseca, a que se juntariam João Gaspar Simões e Adolfo Casais Monteiro.

Iniciaremos hoje um conjunto de textos alusivos à importante revista no panorama literário português. Falaremos a começar de Adolfo Casais Monteiro, o último a juntar-se à equipa da “Presença”, em 1938, mas uma das participações mais significativas. Casais Monteiro situa-se na cultura portuguesa sobretudo como crítico e como ensaísta, além de ter sido um extraordinário cultor de outros géneros. E manda a verdade dizer que foi o seu olhar atento e sensível relativamente ao fenómeno poético em geral que lhe permitiu perceber talvez antes de todos o valor da principal poesia portuguesa de meados do século XX, num período especialmente fasto da criação nacional. Para entender o seu lugar no panorama português é preciso seguir-lhe o percurso, e vê-lo a acompanhar os movimentos fundamentais do século português – desde “A Renascença Portuguesa” até à “Presença”, passando pela premonitória compreensão de Fernando Pessoa e de “Orpheu” e continuando em tudo o que de mais importante se segue. Se é certo que fez parte do grupo portuense da Renascença, depressa pôde libertar-se de qualquer limitação de escola, sobrevoando com excecional mestria o que se ia fazendo para além de constrangimentos de grupos ou amizades. Como diz Carlos Leone: “Sem simplificar o que é complexo (e Pessoa tem uma trajetória única que o leva a todo um outro espaço, que Casais irá procurar), certo é que Casais conhecerá bem, e viverá sentidamente este ar cultural do seu Porto natal, mas não se fixará nele. Nem sequer em Portugal”.

UMA PERSONALIDADE ATENTA
E se se pode dizer que Renascença Portuguesa foi um ponto de partida para quase tudo o que marcou a criação literária no século XX português, Casais Monteiro foi porventura o melhor intérprete e o exemplo dessa riqueza concentrada, complexa e divergente. Mas vejamos os passos do ensaísta e do crítico. Carlos Leone encontrou quatro etapas numa vida que se foi enriquecendo pelos diferentes estímulos a que foi correspondendo. Até 1931 vemo-lo sobretudo inserido no ambiente do Porto, na Faculdade de Letras (encerrada em 1928), ao lado de Leonardo Coimbra, de Álvaro Ribeiro, de Delfim Santos e ainda próximo do poeta Ribeiro do Couto, a colaborar em “A Águia” então já sob a direção de Leonardo. A partir de 1931, o seu centro geográfico estará em Coimbra (onde completa a formação para professor), pertence ao diretório da revista “presença”, mas não perde contacto com o grupo da “Renovação Democrática” do Porto, mas as suas posições políticas claramente oposicionistas condicionam a sua vida profissional, sendo obrigado a vir para Lisboa para sobreviver graças a diversos trabalhos literários de que é incumbido, é várias vezes preso e casa-se com Alice Pereira Gomes (irmã de Soeiro P. Gomes), sendo pais do grande filósofo João Paulo Monteiro. De 1940 a 1954 vive um período difícil, de “projetos soçobrados”, de tensões profissionais e familiares, em Lisboa (onde trabalha intensamente em traduções e publicações) pode aperceber-se da diversidade e riqueza da criação literária no pós-guerra: depois da burguesia liberal do Porto, do segundo modernismo coimbrão, encontra o surrealismo com O’Neill, J.A. França e o que será seu grande amigo, Fernando Lemos. Em 1954, parte para o Brasil, para participar no Congresso internacional de escritores integrado no IV Centenário da Cidade de S. Paulo, “com planos para aí se fixar”, e encontra reconhecimento na Universidade de S. Paulo (Araraquara), onde passa a ensinar Teoria da Literatura e Literatura Portuguesa Contemporânea, e assim torna-se o elemento do grupo da “presença” com produção académica mais relevante. Neste tempo, convive com outros emigrados, como Jorge de Sena e Fernando Lemos, participa na oposição ao regime (leia-se o injustamente esquecido “O País do Absurdo”), sempre com independência de espírito. Morre prematuramente em 1972, com a saúde muito debilitada, depois da morte de Raquel Moacir, com quem vivia.

A DESCOBERTA DE FERNANDO PESSOA
Neste caminho, Casais Monteiro tem uma importância especial quer como analista e crítico de grande argúcia e maturidade, quer como protagonista da história literária, sendo o elemento que teve um papel decisivo nos contactos entre os presencistas e Fernando Pessoa. Com a mediação de Carlos Queirós. Se dúvidas houvesse basta ler-se a carta de Pessoa a Casais sobre a génese da heteronímia para percebermos o seu papel essencial, ainda que não tenha inserido na sua própria obra esses documentos, por distanciamento crítico – “também por Casais ter tido bem cedo a noção de que a sua Obra era construída em diálogo com outros mas definia-se em termos que tinham de ser próprios”. Se há quem tenha percebido desde muito cedo a importância de Fernando Pessoa como personalidade multímoda e como referência mítica da cultura portuguesa contemporânea foi Adolfo Casais Monteiro, naturalmente com João Gaspar Simões, mas com uma originalidade especial no modo como foi abrindo as várias portas que foram conduzindo à afirmação da figura fascinante do poeta dos heterónimos, tornado verdadeiro símbolo além fronteiras. Aliás, o texto de Maria Aliete Galhoz sobre o seu contacto com o ensaísta, a propósito da elaboração da sua tese de licenciatura sobre “O Movimento Poético de Orpheu” é notável pelo que nos revela da probidade do orientador de ocasião e da persistência da orientanda, sob a sombra bem presente do Dr. Joaquim Magalhães. Entre o escritório do Dr. Casais Monteiro e a sala de D. Henriqueta Madalena, irmã de Pessoa, passou-se um extraordinário momento da vida da jovem investigadora, que se tornaria uma das nossas melhores especialistas do poeta de “Mensagem”.

RECORDAR UMA POLÉMICA
Teresa Arsénio Nunes fala com justiça do “homem superior que ia no poeta: esse mesmo que tinha recorrido ao exílio para pedir da poesia, como da música e certas artes enquanto expressão de uma superioridade do homem, acima de tudo um protesto do homem contra si próprio”. E naturalmente vem à baila o texto de Eduardo Lourenço “Presença ou a contrarrevolução do modernismo português?” (publicado inicialmente sem ponto de interrogação em “O Comércio do Porto” a 14.6.1960) onde este afirmava: “O universo de ‘Orpheu’ é um abalo radical que num segundo de terror e êxtase confunde na terra desolada os deuses e os demónios. O drama da ‘presença’ é o de homens que entre as ruínas de uma terra novamente quieta procuram com fervor a imagem de um deus mais intacto para adorar. Enquanto o não acham, o prazer e a angústia da busca lhes servem de verdadeiro deus”. Ao contrário do que julgou ver João Gaspar Simões não era de contrarrevolução política que Lourenço falava mas de movimento poético. E Casais entendeu-o bem, pondo reservas à crítica, recusando a dramatização com base num equívoco, que de facto era excessivo. É certo, porém, que os cortes da censura a tudo o que referisse Casais baralharam a polémica. Ali estava o crítico igual a si próprio, rigoroso e incapaz de alimentar simplificações. Adolfo Casais Monteiro acreditava na consciência do “escritor participante”, era heterodoxo por gosto de autonomia e de liberdade, cultivando a busca da verdade sem ilusões.

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

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