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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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"Paisagem com caminho" de Lima de Freitas

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A Vida dos Livros

“Menina e Moça” de Bernardim Ribeiro

“Menina e Moça” de Bernardim Ribeiro é uma referência fundamental da identidade portuguesa. Pode dizer-se que nesta obra se encontram elementos fundamentais para caracterizar o sentimento português – ligação íntima entre lirismo, tragédia, racionalidade e até picaresco…

«Menina e moça me levaram de casa de minha mãe para muito longe. Que causa fosse então a daquela minha levada, era ainda pequena, não a soube. Agora não lhe ponho outra, senão que parece que já então havia de ser o que depois foi. Vivi ali tanto tempo quanto foi necessário para não poder viver em outra parte. Muito contente fui em aquela terra, mas, coitada de mim, que em breve espaço se mudou tudo aquilo que em longo tempo se buscou e para longo tempo se buscava». Aqui se encontram todos os elementos que caracterizam a “arte de ser português”: a distância, a viagem, a melancolia, a mudança, a incerteza, o desejo, a ausência.

Bernardim Ribeiro é um dos grandes mistérios da nossa literatura. Pouco se sabe e muito se especula. Foi amigo de Francisco Sá de Miranda, mas “Menina e Moça ou a novela Saudades” (publicado em Ferrara, 1554) é um verdadeiro símbolo da nossa tradição lírica, bucólica e romanesca… Eduardo Lourenço considerou esse grande enigma razão suficiente para não se aventurar no seu comentário. Para Pina Martins, a história de “Menina e Moça” é uma novela sentimental. «Há que lê-la e não subentende-la. Há que interpretá-la à luz das categorias do seu tempo e não do nosso…». O primeiro romance principia pelo monólogo de uma jovem que não conhecemos nem de nome nem de condição. A jovem queixa-se, como numa cantiga de amigo, de uma dolorosa separação e de mudanças que a atiraram para o desterro de um monte solitário, onde vive há dois anos. E conta o que ocorreu dias antes, estando numa solidão sem medida. Viu a manhã formosa por entre os prados do vale, sentou-se debaixo de um freixo, à beira-rio, e não faltou muito que numa ramada viesse poisar um rouxinol. Cantou um triste trinado e caiu morto na corrente larga da água, que o arrastou para longe.

O enredo nasce envolto em mistério, inerente à incerteza. Aproximou-se então uma mulher idosa, com quem a jovem encetou um diálogo sobre as desventuras de cada uma. Deparamo-nos com a tradição original da cultura trovadoresca – num encontro de felicidade e perdição, de destino e fatalidade. A mulher recém-chegada relata a perdição daquele lugar, em que dois amigos acabaram mortos à traição, deixando as suas amadas sós, à sua espera. Trata-se de um lugar fadado com um amor cavalheiresco, que lembra a saga de Amadis de Gaula, com duas narrativas, de Lamentor e de Avalor. É a tradição célyica que aqui encontramos. O cavaleiro Lamentor, chega de longes terras, acompanhado de Belisa, dele grávida, e de Aónia, duas irmãs. Belisa dá à luz Arima, mas morre na sequência do parto. Entretanto, em momento inesperado e trágico, Lamentor mata o Cavaleiro da Ponte e chega um desconhecido, Binmarder (misterioso anagrama), que se apaixona por Aónia e pela sua extraordinária beleza.

Dispomos, assim, três núcleos neste misterioso enredo: Lamentor e Belisa, que constituem o início do relato, Binmarder e Aónia; Avalor e Arima… Binmarder e Avalor marcam a narrativa com uma geração de permeio, de Aónia à sobrinha Arima, órfã de Belisa. Aónia e Arima encontram destinos semelhantes; amam e são amadas por homens comprometidos, com Aquelísia e a Senhora Deserdada. Binmarder e Avalor estão condenados a viver o sofrimento da separação. E temos um caleidoscópio de amores: Aquelísia ama Binmarder que por sua vez ama Aónia, obrigada a casar com um vizinho e a Senhora Deserdada ama Avalor que ama Arima. Encontramos um mundo de amores e desencontros – num romance que termina com uma dama ultrajada nos seus desejos amorosos, que pede ajuda a Avalor…

O amor e o sofrimento estão bem presentes. E é a saudade ou soydade que faz Lamentor ficar para sempre ligado à memória de Belisa, como Avalor à esperança de encontrar Arima. A saudade encontra a sua essência, como lembrança e desejo, mas igualmente como sofrimento e esperança, feitos de separação e ânsia de regresso, numa dimensão religiosa e lírica que Pina Martins considera cristã, e que Helder Macedo vê à luz da tradição judaica. Bernardim é, deste modo, um símbolo da tradição antiga do amor saudoso dos trovadores provençais… Mas compreende-se também o que Carolina Michaelis de Vasconcelos disse sobre a natureza própria da saudade portuguesa, diferente da melancolia alemã (sensucht), com forte enraizamento lírico que Bernardim soube bem traduzir num rico encadeamento de sentimentos num destino pleno de desconcerto.

A ilustração que escolhemos para esta evocação de Bernardim é “Paisagem com Caminho” de Lima de Freitas (CAM, Fundação C. Gulbenkian). Trata-se de alguém que desenvolveu a sua obra cultural a partir das raízes portuguesa e da sua originalidade. De facto, “Menina e Moça” é o verdadeiro símbolo de uma visão complexa capaz de compreender o fundo céltico, mas também o entrosamento entre a raiz judaica e a síntese cristã, que encontramos a cada passo nas tradições e hábitos, nos costumes e tradições. O “melting pot” de que falam os historiadores da cultura está aqui bem evidenciado. Eis por que razão Pina Martins e Helder Macedo têm parcelas de razão. Há um encontro de várias influências que corresponde, no fundo, ao carácter compósito de uma cultura feita de encontros e desencontros, que não pode compreender-se apenas numa única linha de pensamento.    

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

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