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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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A leitura – homenagem a David Mourão-Ferreira

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A Vida dos Livros

Francisco Simões (1946-2026)

Recordamos hoje o escultor e artista plástico Francisco Simões (1946-2026), autor de um número significativo de representações de poetas portugueses, que enriquecem o nosso imaginário cultural.   

O Parque dos Poetas é uma iniciativa justíssima à criatividade poética dos portugueses. Se é verdade que um dia João Bénard da Costa pôs em dúvida que possamos generalizar a ideia de sermos um país de poetas, a verdade é que há alguns fatores que nos permitem dar à nossa criação poética uma importância especial. Antes do mais, a nossa língua nasceu da tradição trovadoresca dos galaico-portugueses. E assim lembramos João Garcia de Guilhade, Afonso X, João Lobeira ou Paio Soares de Taveirós… Os estudiosos da língua afirmaram-no com muita clareza, atribuindo ao rei poeta – D. Dinis – o gesto premonitório de tornar a língua vulgar idioma usado pelos tabeliães, em termos originalíssimos, quando as outras nações continuavam a usar o latim. Esse facto suscitou a consolidação da língua na poesia e na prosa muito mais cedo do que noutros países e com outros romances. Camões e Vieira foram assim os autores da maturidade da língua portuguesa na poesia e na prosa, seguindo as experiências de Garcia de Resende, Sá de Miranda, Bernardim Ribeiro, mas também de Gil Vicente, Francisco Rodrigues Lobo ou Francisco Manuel de Melo.

O escultor Francisco Simões e David Mourão Ferreira estão da génese da extraordinária homenagem no Parque dos Poetas de Oeiras, sendo da autoria do primeiro as estátuas de: Camilo Pessanha (1867-1926); Teixeira de Pascoais (1877-1952); Fernando Pessoa (1888-1935); Mário Sá Carneiro (1890-1916); Florbela Espanca (1894-1930); José Gomes Ferreira (1900-1985); José Régio (1901-1969); Vitorino Nemésio (1901- 1978); António Gedeão (1906-1997); Miguel Torga (1907-1995); Jorge de Sena (1919-2004); Carlos de Oliveira (1921-1981); Natália Correia (1923-1993); Eugénio de Andrade (1923-2005); Alexandre O’Neill (1924-1986); António Ramos Rosa (1924-2013); David Mourão-Ferreira (1927-1996); Ruy Belo (1933-1978) e Manuel Alegre (1936). Tive o gosto de trabalhar com Francisco Simões e devo recordar o seu exemplo e entusiasmo na evocação dos maiores poetas contemporâneos que lhe coube homenagear. São também de realçar as esculturas que produziu para o Metropolitano de Lisboa. Francisco Simões concluiu o curso da Escola de Artes Decorativas António Arroio, para onde foi encaminhado pelo Professor Calvet de Magalhães. Foi bolseiro da OCDE em Parma, Turim, Novara, Verona e Milão e trabalhou no Museu do Louvre com Germain Bazin. Obteve o diploma de Escultura na Academia de Música e Belas Artes da Madeira.

Tive o gosto e a honra de trabalhar de perto com Francisco Simões, Querubim Lapa e Manuela Pinheiro num projeto que me foi transmitido por Roberto Carneiro e que prossegui com muito prazer e belos resultados. Perante as iniciativas espontâneas das escolas de introduzirem elementos decorativos por intervenção de professores e alunos, verificava-se uma grande heterogeneidade de situações, muitas delas sem qualidade ou sem o necessário equilíbrio e a exigência artística adequada. Daí ter sido decidido criar uma equipa constituída por artistas consagrados, que passaram a apreciar e a acompanhar os projetos apresentados pelas escolas. Querubim Lapa, Francisco Simões e Manuela Pinheiro, com provas dadas nos domínios da cerâmica, da escultura e da pintura, foram os escolhidos e empenharam-se nessa tarefa de modo exemplar. O resultado da experiência foi excelente, como reconheceram as comunidades escolares, professores e estudantes, que recordam com orgulho os resultados alcançados graças à interação entre a escola e os artistas, que assim se tornaram intervenientes ativos na criação de estabelecimentos mais atraentes e motivadores da criação artística. Francisco Simões foi uma referência fundamental nesse projeto, do mesmo modo que Manuela Pinheiro professora e artista plástica de grande mérito. A aprendizagem torna-se mais viva, mercê do reconhecimento da importância da partilha criativa das artes na comunidade educativa. Por isso, promovemos ainda a presença nas escolas de escritores, poetas e artistas, com resultados extraordinários e inesquecíveis para a vida de estudantes e educadores.

Não esqueço ainda  mestre Querubim Lapa. A vida das escolas atraia-o. Os diálogos que foi estabelecendo estavam cheios de boas lembranças: desde a participação no filme de Manuel Guimarães sobre Soares dos Reis, que o marcou decisivamente, até à partilha de experiências com António Ayres e Lagoa Henriques. A partir de 1950 esteve na Escola de Belas Artes do Porto, onde trabalhou com Barata Feyo, abraçando a escultura como uma das suas artes de eleição, em ligação natural com o desenho e a pintura. Professor do ensino secundário, o ensino dos mais jovens era uma verdadeira paixão. Essa memória  levou-o a dedicar-se com entusiasmo ao projeto de renovação das escolas. A cada passo recordava o caminho que fez, desde os primeiros passos na Viúva Lamego, a colaboração com Lino António e o ensino na sua Escola António Arroio. Houve ainda o projeto da Gravura – Cooperativa de Gravadores Portugueses, onde teve a sua primeira exposição individual com pintura, gravura e cerâmica, bem como a decoração da Loja das Meias, a convite do arquiteto Carlos Tojal, a intervenção no Hotel Ritz ou os magníficos painéis de cerâmica policromada na Pastelaria Mexicana.

Francisco Simões, Manuela Pinheiro e Querubim Lapa foram assim, além de nos terem legado uma riquíssima obra pessoal, referências fundamentais na renovação dos espaços educativos, fazendo das escolas espaços aprazíveis e lugares naturais de criatividade e de prazer.

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

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