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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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A Vida dos Livros

Feira do Livro do Porto

A Feira do Livro do Porto terá lugar de 21 de agosto a 6 de setembro nos jardins do Palácio de Cristal, organizada desde 2014 pela Câmara Municipal, sucedendo ao festival literário criado em 1930 como Semana do Livro. Este ano a homenageada será Inês Lourenço, poeta e animadora cultural.

Em boa hora, a Feira do Livro homenageia quem tem dado o melhor de si à cultura da cidade. Inês Lourenço nasceu em 1942, sendo licenciada em Línguas e Literaturas Modernas (Estudos Portugueses) pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Foi-lhe atribuída, em 9 de julho de 2023, enquanto poeta, a medalha de mérito pela Câmara Municipal do Porto. Figura homenageada na Feira do Livro do Porto (2026), foi distinguida com o Grande Prémio de Poesia Gil Vicente da APE e Município de Guimarães, pelo seu livro “Casa de Nuvem”. Com ampla representação em diversas antologias e numerosas coletâneas de poesia, tem poemas seus publicados em vários jornais e revistas portuguesas, como: JL; Cadernos de Serrúbia; Colóquio Letras; Relâmpago, Inimigo Rumor; Telhados de Vidro; Águas Furtadas, Poezine, Cão Celeste #7, Piolho, Cintilações, Eufeme, Gazeta Literária, etc. Colaborou, igualmente, em publicações de poesia do Brasil, Espanha, França, Itália, México, Áustria, Marrocos e Roménia, com poemas que foram traduzidos nas respetivas línguas.

Não pode esquecer-se a coordenação e edição por Inês Lourenço dos Cadernos de Poesia – Hífen, em Rio Tinto, entre 1987 e 1999, com 13 números editados, na sua maioria temáticos. Trata-se de uma publicação de carácter intergeracional, em que participaram, com colaborações inéditas, grande parte dos poetas portugueses contemporâneos, bem como poetas marcantes de outras línguas. Nos últimos anos publicou: “Dois Cimbalinos Escaldados (vivências portuenses, antologia poética)”, Texto Sentido, Porto, 2022; “14 poetas portuguesas escolhem Inês”, (organização de João Luís Barreto Guimarães, prefácio de Luís Miguel Queirós), Ed. lado esquerdo, Coimbra, 2022; “Ainda o Lugar Incerto da Procura”, Ed. Glaciar (com o apoio do Museu e Bibliotecas do Porto), 2024 e “Casa de Nuvem – Todos os Livros”, (posfácio José Manuel Teixeira da Silva), Imprensa Nacional (Coleção Plural), 2025.

Citamos um dos seus poemas, publicado em “O Jogo das Comparações”:

Balada dos Amores Difíceis

“Não me refiro aos trágicos: Romeu e Julieta
Tristão e Isolda, Pedro e Inês nem a alguns ignorados
ícones como Yourcenar e Grace ou Rimbaud e Verlaine. Refiro-me
aos que se buscam sem saber nada
do fogo que arde sem se ver, órficos cantos, mas côncavos
e convexos se combinam cruzando genes e transitórios
tempos de vida enquanto povoam cidades, salas
de parto, comércios, indústrias, portais, geriatrias. E dos campos deixados
à exportação do vinho e dos litorais ainda com redes
e barcos cresce um ruído de formiga banal e curtida
de pequenos destinos. Esses são os grandes heróis
dos amores difíceis
que não ficam no poema”.

Nesta Festa do Livro do Porto, devo ainda lembrar que “ao percorrer a cidade sentimos especialmente o apelo do património cultural como realidade viva, como presença forte de uma memória longa de quantos nos antecederam. A expressão “Daqui Houve Nome Portugal” tem uma ressonância muito própria. Recordamos o simbolismo de António Carneiro no tríptico «Vida» – na invocação da muito portuense «Renascença Portuguesa». E a palavra “renascença” traz-nos a capacidade eternamente renovadora de uma memória viva. Mesmo para entender o modernismo, precisamos de compreender as raízes, que nos levam proximamente a Sampaio Bruno e a Teixeira de Pascoaes – e mais atrás a toda a tradição dos privilégios municipais da nossa única cidade-estado, à Revolução liberal e à vitória de D. Pedro. Dir-se-á que aqui encontramos com nitidez a demonstração de que etimologicamente a ideia de património relaciona-se com o serviço (múnus) do que recebemos de nossos antepassados (patres). Perante a torre dos Clérigos, invocamos a memória de Nasoni e a sua capacidade encantatória. Diante da Sé somos levados aos tempos mais antigos, às origens visigóticas, à presúria de Vímara Peres até à recordação de Sophia do Bispo do Porto, D. António: «Na cidade do Porto há muito granito / Entre névoas sombras e cintilações / A cidade parece firme e inexpugnável / E sólida – mas habitada / Por súbitos clarões de profecia / Junto ao rio em cujo verde se espelham as visões. // Assim quando eu entrava no Paço do Bispo / E passava a mão sobre a pedra rugosa / O paço me parecia fortaleza / Porém a fortaleza não era / Os grossos muros de pedra caiada / Nem os limites de pedra nem a escada / De largos degraus de granito / Nem o peso frio das coisas inertes que emanava / Fortaleza era o homem – o Bispo – / Alto e direito firme como torre…». E se falo de Sophia não posso esquecer Ruben A., fiel cultor da memória e do património vivo, desde a genial «Torre da Barbela» até à lembrança de D. Pedro V – «o primeiro homem moderno que houve em Portugal».

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

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