Folhetim de Verão – Capítulo VII
A Gare Marítima de Alcântara, projetada por Pardal Monteiro, onde se encontram os painéis alusivos à Nau Catrineta de Almada Negreiros, foi inaugurada em 1943, apesar do edifício ainda ficar em obras mais dois anos. O contrato com Almada Negreiros envolvia oito pinturas a fresco (dois trípticos e duas composições isoladas) e estipulava a execução até 1945, ainda que a finalização tenha ocorrido em 1944. As duas composições isoladas correspondem à lenda de D. Fuas Roupinho ou Milagre de Nossa Senhora da Nazaré e ao quadro “Oh Terra onde Nasci” ou “Festa de Romaria”, com ambivalência urbana e rural. O primeiro tríptico tem por título “Lá Vem a Nau Catrineta que Tem muito que Contar” e cujo tema corresponde ao teor da xácara do “Romanceiro”, popularizada por Almeida Garrett – dando conta dos dramas e das dificuldades sentidos pelos navegadores portugueses na aventura marítima. Para além do romance transmitido por via oral, temos a descrição pormenorizada da “História Trágico Marítima”. Aí sentimos de um modo especialmente sugestivo as vicissitudes por que passaram os navegadores portugueses: incerteza, doenças, fome, conflitos, tensões, impulsos, angústias, desistência, esperança, dúvida… Tratava-se de uma experiência absolutamente inédita, já que a viagem depararia não apenas com a incerteza, mas também com o confronto entre a magia, a religiosidade e os limites do conhecimento científico. De facto, a narrativa da Nau Catrineta do XVI tem um sabor medieval e mágico, que recorda as reminiscências dos aedos da antiguidade mediterrânica. Exaltam-se a coragem e a determinação dos navegadores que se defrontaram com o Mar Tenebroso. Mais do que qualquer ilusão sobre a aventura, temos o realismo da força e da determinação dos protagonistas, como gente de carne e osso. Lateralmente à segunda composição isolada, Almada Negreiros faz a “Evocação de Lisboa”, com as “Mulheres escolhendo peixe”, barcos, cordas, velas …e com “Mulheres transportando sal”. Além do relato mítico, temos a face laboriosa do povo de Lisboa. As cenas da memória citadina, com o Aqueduto das Águas Livres e a Sé, ainda com o casario desenvolvem-se numa Lisboa sem rostos, a não ser os da azáfama do rio Tejo. É uma homenagem à mulher que trabalha – as varinas e as transportadoras de sal. Dir-se-ia que estamos numa cena do Tejo, faina fluvial. Na escolha do peixe e no transporte, há um confronto de vontades, que não esquece os sacrifícios no mar alto e o duro trabalho de quem fica. Não esqueçamos que o tempo em que Almada pinta os painéis é um tempo de guerra e de muitas incertezas. Não estamos num cenário idílico. Importa compreender o absurdo e a angústia do tempo que corre. Prepara-se o que será a temática da Estação da Rocha do Conde Óbidos. Esta foi pensada para acolher passageiros de transatlânticos ou viajantes de paquetes de luxo. A guerra terminara. O pintor inicia os estudos prévios em finais de 1945. Almada Negreiros parte da sua proposta – a tragédia do uno: 1 mais 1 igual a 1. O primeiro tríptico retoma as imagens literárias comuns à primeira década do século, recuperadas por Almada na sua poesia sensacionalista dos anos 20. Os saltimbancos correspondem a esse grito de alerta, o que suscitará algum incómodo. Seguem-se os quadros: “Varinas à espera do Pescado” e “Passeio de Barco”. No primeiro, os rostos falam da dureza das vidas, cuja espera é o seu quotidiano. Depois, é a criança e o tempo anónimo de um povo em xaile rural, que se distrai. Por trás, em terra, sobre o rio, o cachimbo, o olhar perdido do pescador, deixando os namorados em segundo plano. Uma janela aberta, procura o conhecimento, a geometria encontra a luz, e em todos os quadros há um barco, símbolo da solidão. Cada um em si e por si, mas havia que recusar a indiferença e a descrença. Há uma exigência de perfeição. O malabarista não nos deixa indiferentes.
No outro tríptico, há o outro ciclo. Temos a Partida, o Trabalho de Construção, o Regresso. É o ciclo do adeus, mais do que da chegada. Sentimos a mágoa do que partem ou dos que ficam, de costas voltadas para os que observam à distância. “Partem tão tristes os tristes”. O trabalho, a ascensão, através da escada. É um tempo intermédio, é a espera até que o navio se abeira do cais: cumprida a missão, realizado o destino ou o fado. Os melhores analistas lembram a “saudade”, na primeira “Canção” publicada por Almada em “Orpheu”. “Eu amo aquela mão branca dependurada da amurada da galé que partia em busca de outras galés perdidas em mares longuíssimos”. Os dois trípticos da Rocha do Conde de Óbidos constituem, assim, peças cruciais na obra de Almada Negreiros. Por isso seguem o ciclo histórico, que Almada pontua com a estética moderna. Sagres e os painéis de S. Vicente anunciam os novos descobridores, onde se fala de barcos e emigrantes.
(Continua)
