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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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Folhetim de Verão – Capítulo XII

Continuamos a interrogar-nos sobre mistérios culturais suscitados pela Nau Catrineta. Falámos bastamente de Almada Negreiros e nos últimos folhetins cuidámos da relação singularíssima com Fernando Pessoa a que iremos regressando durante este Folhetim. Hoje trataremos de um verdadeiro enigma, que tem a ver a única obra publicada em vida pelo inesgotável poeta. Circunstâncias especiais rodearam não apenas a singular publicação, mas também o prémio que lhe foi atribuído Concorreu o poeta ao referido prémio de poesia? Disso não há dúvida, apesar de os mentideros revelarem muitas hesitações. Ninguém põe em causa o merecimento, mas a verdade é que se criou um mistério. Artur Anselmo, mestre da cultura e da bibliofilia ajuda-nos nesse imbróglio policiesco e escreveu as “Considerações sobre a Acta do Prémio Antero de Quental (1934) Desaparecida Durante Oitenta Anos”.  “Várias tentativas se fizeram para encontrar a famosa Acta graças à qual, enfim, se faria luz acerca das condições em que a Mensagem de Fernando Pessoa foi liminarmente afastada da competição, embora posteriormente recuperada por António Ferro”. Não havia vestígios das pastas dos arquivos do SPN em matéria de prémios literários. José Blanco estava ciente de que a revelação da misteriosa Acta abriria caminho à descoberta do enigma. Eis senão quando, graças à Fundação António Quadros (animada por Mafalda Ferro e com ajuda de sua irmã Rita), descobriu-se uma benfazeja fotocópia do primeiro livro de Actas do SPN. Aí se lia que no dia 29 de dezembro de 1934 se reuniram no gabinete do Diretor, os membros do júri do Prémio Literário de Antero de Quental (Poesia): Acácio Paiva e Mário Beirão, com a presença de António Ferro e do secretário António Menezes. Teresa Leitão de Barros e Alberto Osório de Castro enviaram os votos por escrito. Numa leitura atenta da Acta, verificamos ter havido um intenso debate perante as obras concorrentes que se distinguiam entre as categorias de mais de cem páginas e de menos de cem páginas. Na primeira categoria apresentaram-se catorze obras; e na segunda, oito. O júri examinou as obras considerando fora do regulamento para a primeira categoria uma por ser uma coletânea de versos já publicados, e duas por terem menos de cem páginas, entre as quais Mensagem de Fernando Pessoa. Considerando um exame de valores foram excluídos oito livros. Considerando os elementos disponíveis, o júri reuniu e chegou às seguintes conclusões: segundo Artur Anselmo agiu precipitadamente ao dividir os concorrentes em duas categorias, com obras de mais de cem páginas e de menos de cem páginas, e comete um erro ao integrar a Mensagem nas de menos de cem páginas, apesar de tecnicamente ter 104 páginas devendo ser considerada na primeira categoria… Por isso, Teresa Leitão de Barros dá destaque para a qualidade da obra de Fernando Pessoa. Diz Artur Anselmo: “Até hoje, segundo creio, não deve ter ocorrido em todo o mundo civilizado um caso semelhante de ignorância bibliográfica, em que alguém (fosse Beirão ou fosse Paiva) considera fora da contagem das páginas o índice e a subscrição final, num total de 6 páginas, isto é da página 97 à página 102”. E é Mário Beirão quem tira da cartola a ideia de premiar Pessoa pela segunda categoria… Que acontece à Mensagem? Numa palavra, vai prevalecer um equívoco e, na prática, um erro? Que decide o júri? Acácio Paiva resume: Atribuir o prémio à Romaria de Vasco Reis, em nome da “revelação e consagração de novos valores”, apesar de ser completamente desconhecido do nosso público. Deste modo, o Prémio de Antero de Quental (segunda categoria) é atribuído por maioria ao livro Mensagem. “Acerca de Fernando Pessoa (Ferro) declarou também a sua grande satisfação por ver o júri reconhecer e homenagear o mérito da sua obra, trazendo assim à luz duma maior publicidade um nome de marcado prestígio nos cenáculos intelectuais mas que até agora voluntariamente vivera num isolamento distante. Mostrou-se também resolvido a estudar com atenção o processo de aproveitar a escolha do júri para demonstrar a Fernando Pessoa o particular apreço que a sua rara personalidade merece a todos os espíritos cultos”.

(Continua)

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