A escultura de Sónia Gomes acontece de modo orgânico, espontâneo e imediato.
Constrói-se através de pedaços de tecido, bocados de arame e troncos de árvore.
Em 2019, a artista brasileira apresentou um conjunto de peças na exposição intitulada “Sónia Gomes: Ainda Assim Me Levanto”, que ocupava o MASP e a sala da Casa de Vidro.
Na Casa de Vidro, Sónia Gomes trabalhou com a suspensão, o equilíbrio, o rastejo e a amarração. As suas peças completam a casa ao humanizar, suavizar e habitar aquele espaço. Os tecidos usados e costurados e os volumes das suas trouxas transportam memórias. Cada fragmento simboliza uma presença, uma outra vida, uma ocupação que já não existe, um outrora que virá a ser.
Sónia Gomes desejou dialogar com o jardim e assim aproximar o interior do exterior.
Ansiou trazer para dentro a natureza física de modo a criar de forma intuitiva organismos que se espalham pelo palco neutro e ortogonal que Lina Bo Bardi concebeu para a sala da Casa de Vidro. Através destes objectos, o exterior estende-se infinitamente
para o interior. A paisagem passou a ser palpável, tangível.
A intervenção de Sónia Gomes na Casa de Vidro é uma invasão gradual e consentida que se manifesta ao subir pelas árvores, ao diluir-se pelo chão, ao agarrar-se às colunas.
A escultura de Sónia Gomes nunca se quebra, o seu rastejar envolve o espaço e o corpo de quem passa.
As peças de Sónia Gomes são assim pré-existências eternas e transformações necessárias para que o tempo se prolongue. São esperas para que certas histórias nunca sejam esquecidas. São bocados não desejados que transfiguram o insignificante através de uma junção inesperada. São pedaços que ninguém quer e que se embrulham em sítios imprevistos de modo temporário e transitório.
A presença destas obras é tão necessária àquele espaço intocável. Sem elas, este promontório perderia toda a sua humanidade e deixaria de se aproximar ao mundo do agora, do imediato, do pormenor e do detalhe. O real, o pequeno e o trivial está espelhado nestes tecidos. Cada retalho é capaz de representar a humanidade inteira – todos estamos ali cosidos uns aos outros, no chão, na árvore, na mesa, agarrados às colunas, levantados, caídos ou erguidos em equilíbrio instável e precário. Os tecidos representam isso mesmo, são bocados de pessoas porque vestem, e cobrem e são aquilo que se mostra ao mundo.
Deste modo, as peças de Sónia Gomes, feitas de materiais banais, conseguem aproximar ainda mais a casa do jardim, e de maneira subtil são capazes de transformar o insignificante e de erguer aquele espaço ao trazer presença e habitabilidade.
Ana Ruepp