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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE FERNANDO PINTO DO AMARAL

 

fernando pinto do amaral.jpg

 

CARDIOLOGIA

 

Talvez na sua vida o maior estímulo

fosse a curiosidade.

 

Era o motor de tudo: aproximava-se

de todas as mulheres que conhecia,

mas só lhe interessavam os seus corações.

 

Cultivava com método essa obsessão

e tal como as crianças costumam fazer

aos brinquedos preferidos,

também ele queria vê-los por dentro,

saber ao certo como funcionavam,

desfibrar lentamente cada esperança,

dissecar com um rigor quase científico

cada angústia ou desejo inconfessável

até saborear o gosto sempre novo

de cada uma dessas células.

 

Após cada experiência, observava

aqueles corações já desmontados

e, por não conseguir juntar as peças,

guardava-as uma a uma no seu peito.

Era um lugar seguro

e com tantos pedaços de outras vidas

na sua pulsação descompassada

podia enfim acreditar

que tinha também ele um coração.

 

 

in Pena Suspensa, 2004

 

 

CARDIOLOGY

 

The greatest motivation in his life

was perhaps curiosity.

 

It drove him on: he approached

every woman he met,

but he was only interested in their hearts.

 

He methodically followed this obsession

and like a child 

with its favourite toy

he also wanted to see what was inside,

find out exactly how it worked,

to shred each hope in slow motion,

dissect with almost scientific rigour

each anguish, each unavowable desire,

till he felt the ever fresh taste

in each one of those cells.

 

After each experiment, he observed

the dismantled hearts

and, not being able to reassemble them,

he gathered them one by one into his breast.

It was a safe place

and holding so many pieces of other lives

pulsating out of step

he could at last believe

that he also had a heart.

 

 

© Translated by Ana Hudson, 2010

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