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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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Artigos de Opinião

Elogio da Literatura

Há dias, na sessão semanal da Academia Brasileira de Letras, tive a grande alegria de saber, na hora exata, que Lídia Jorge tinha obtido o merecidíssimo Prémio Camões. Era algo justo e necessário. O lugar e a circunstância tiveram uma importância especial, uma vez que aquele era o cenário ideal demonstrativo da importância do reconhecimento. A partir do Rio de Janeiro, no Petit Trianon, ligados pelas novas tecnologias, era a língua portuguesa que exprimia toda a sua vitalidade. A grande escritora, com uma obra rica e multifacetada, alcançava expressão universalista, capaz de congregar  a diversidade de um idioma cada vez mais global e aberto. A evocação punha a tónica na importância da literatura como fator decisivo de diálogo entre povos e culturas.

O elogio da literatura é algo fundamental num tempo em que o apelo a pensar e a ler corresponde ao cerne da vida cultural numa sociedade moderna e desenvolvida. A partir deste tema, evoco a morte de um antigo colega e amigo que entregou a sua vida à defesa do direito, da democracia e da cultura e que merece especial recordação. Falo de António Rebordão Montalvo para quem a literatura era um complemento natural da vida. Pouco antes de nos deixar inesperadamente, pediu-me que apresentasse o seu último livro, o que fiz com muito gosto. Compreendi plenamente que, ao dedicar-se generosamente à escrita e à leitura, era a vida que homenageava em toda a sua diversidade e esplendor. Apaixonado da aventura portuguesa no mundo, estudioso da diversidade das culturas, defensor ativo da participação cívica e da legitimidade democrática através do poder local, foi um advogado competente entregue às boas causas e à ideia de um Estado de direito próximo das pessoas e de uma justiça humana.

Sempre o encontrei preocupado com as causas dos outros e do bem comum, desde a Associação de Estudantes até ao Comité de Peritos do Conselho da Europa sobre direito de Autonomia Local ou à CCDR de Lisboa e Vale do Tejo. As últimas conversas que tivemos ocuparam-se da literatura e da necessidade de uma maior qualidade nas aprendizagens. A educação é, sem dúvida, prioridade essencial do desenvolvimento social e económico. E estamos num momento decisivo na sociedade portuguesa e europeia neste domínio. Os níveis de formação dos jovens alcançados obrigam a sermos mais exigentes e a recusar a facilidade.

No seu último romance, Cartas de Jharia (Astrolábio, 2025), a tradição e a modernidade confrontam-se na sociedade indiana contemporânea. Há a memória pesada  da condenação das viúvas ao sati, prática bárbara de sete séculos, além da lembrança tremenda da exploração das crianças nas minas de Jharia. Com o complexo pano de fundo da Índia tradicional em choque com a Índia moderna, deparamo-nos com a essência da dignidade humana, na relação entre Michael e Katherine, sob o peso da incerteza de um veredicto. Coexistem angústia e esperança, dúvida e determinação, e a interrogação sobre o futuro do jovem Karu, que não poderia ficar sujeito a um fatalismo do passado. Na narrativa complexa, tudo se complementa: as injustiças antigas, as suas repercussões nos dias de hoje, os poderosos desafios de uma sociedade que progride, o diálogo entre culturas, bem evidente nas origens diferentes dos protagonistas. No fundo, a literatura é um extraordinário revelador sobre a essência da vida. Por isso, não podemos viver sem ela… 

GOM     

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