1. Se é um lugar-comum que os campos nunca proporcionaram a felicidade aos indígenas e legítimos habitantes (os camponeses), dado estarem factual e maioritariamente associados à pobreza, sobrevivência e subsistência esforçada, trabalho penoso e pesado, como se justifica que deles se tenha construído, ao longo dos tempos, um imaginário encantatório, bucólico, puro e estimulante? Reabilitar a temática do campo parece uma lembrança inoportuna num tempo de grandes urbes e megacidades, da massificação urbana crescente e da sua área metropolitana e periférica, por confronto com a desocupação dos campos, deixados pela população camponesa, indiciando uma árdua e dificultosa permanência.
O que é contrariado pela poesia quimérica do imaginário arcádico-pastoril, em que o belo é a luz com que a Natureza aparece brilhante e ornada, num bucolismo padronizado que foi causa de um ruralismo sublimado em idealizações literárias como a écloga e a pastorela. O próprio nome “Arcádia” evoca uma região do Peloponeso, no sul da Grécia, outrora povoada de carvalhos, onde inúmeros pastores costumavam apascentar os rebanhos, símbolo utópico (na arte e literatura) de simplicidade, natureza intocada e vida idílica.
2. A oposição campo/cidade é tema em “A Cidade e as Serras”, de Eça de Queirós, em que Jacinto, homem culto, viajado, racionalista e materialista, pensando encontrar a felicidade nos progressos da erudição e da mecânica, não era feliz em Paris, no meio da civilização em que nadava. O seu espírito sofria, o tédio turvava-lhe os dias. Acabou por aceitar a proposta (do Zé Fernandes) de uma visita às terras de Tormes, onde o arrebatamento da natureza, a magia dos campos, o ar das montanhas, a alimentação simples e a boa gente o cativaram, casando e criando família, não mais regressando a Paris, transformando-se num Jacinto proprietário agrícola, em detrimento do aristocrata de outrora.
No tempo em que os citadinos começaram, em grande número, a procurar viagens no campo, para revigorar a saúde do corpo e a harmonia espiritual, Wordsworth, poeta romântico inglês, descobriu no campo inspiração para os seus poemas, dedicados ao cuco, à borboleta, à cotovia, à pequena calidónia, “Ao galo a cantar / A água a passar, / O lago que brilha, / As aves que trinam, / O campo dormente / Sob o sol ardente”.
Há uma glorificação dos campos e uma minimização da cidade, apesar de, nos tempos atuais, se indiciar que a antiga polarização está cada vez mais desatualizada, porque o campo está progressivamente mais igual à cidade, de tal modo que, entre nós, é cada vez mais marcante falar na oposição litoral/interior.
De todo o modo, os campos continuam a ser romantizados, mitificados e aclamados como um “contraveneno” frente ao “envenenamento” psicológico decorrente da vida da cidade, onde os seus habitantes são vistos, para muitos, como possuídos de um desejo incessante de coisas novas, de que não tinham necessidade e que também nunca seriam adequadas para os satisfazer.
Mesmo assim, no geral, as pessoas migram para a cidade, a começar por quem nado e criado no campo, porque mais aberta e bem posicionada para tirar partido do progresso artístico, científico e tecnológico como fatores decisivos do desenvolvimento humano.
3. Se, por um lado, não há que mitificar ou sacralizar os campos, pois neles também há o feio, o horrendo, calamidades e catástrofes naturais, também não há que demonizar, sem mais, a cidade, dado que as possibilidades da ciência, da técnica e da máquina, que inventou e adaptou, também são elementos fundamentais da felicidade humana, transversais a toda a humanidade. Tal como o bem, o mal, a violência, a inveja, a vaidade e demais sentimentos humanos existem no campo e na cidade, variando no em escala e no contexto.
À medida que a cidade avança, há um sentimento de perda e uma dessublimação do campo, o que não significa que não seja idealizado e romantizado, nomeadamente por aqueles que dele não precisaram (nem precisam) para viver e subsistir com dignidade, que tiveram uma vida cheia, culta e viajada que lhes permitiu, um dia, escolher o campo como retiro, refúgio, por amor ao silêncio ou à solitude, não prescindindo dos benefícios que a cidade e a máquina lhes deram.
Em qualquer caso, e ao invés do Jacinto de Eça, não podemos chegar à situação de marginalizar os conhecimentos científicos, tecnológicos e os seus inventos (exaltando o campo), mesmo sabendo que também têm inconvenientes, havendo que optar por uma solução equilibrada entre o campo e a cidade. Sem esquecer que há muitos urbanos nostálgicos que apenas só veem beleza no campo por nele nunca terem sido pobres, terem tido dificuldades, sofrido ou vivido permanentemente, nem serem camponeses, nem dele dependerem para sobreviver, ou após uma vida citadina preenchida de que ficaram cansados sem perderem os seus benefícios.
Joaquim M. M. Patrício
Crónica Pluricultural n.º 273